segunda-feira, 24 de outubro de 2011

NOS TEMPOS DA BRUTALIDADE

6.
A esperar desde sempre por ela. Quando ela viajou para São Paulo e não se morreu embora ela não trouxesse o disco do Roberto Carlos. Anos sessenta. Quando disse que voltava assim que se partisse. Quando o tempo acabou, sumiu, apequenou, e finalmente a devorou. Mas a espera continuou. Atropelando-me. Quando a casa irrompia no meio da rua que eu precisava atravessar. Quando a dor assaltava e não havia ninguém por quem gritar. Quando o medo tomou a forma de O EXORCISTA e nunca mais se foi. Quando a outra se mudou para a casa em frente e covardemente contratou um detetive. A outra. O que disse Lacan? O sujeito evanescente. Quando no dia de natal a ceia ficou posta, e vieram as doze badaladas da meia-noite, e ninguém chegou. Quando se faz cinqüenta anos tal como se fez quinze. Quando a inteligência é grande e a tolerância fica absurdamente maior. E infinitamente menor que a solidão. Quando ser é ser impertinente e gostar de gostar é ser vaidoso. Quando trepar é uma questão de estar na moda. Quando o olhar não diz, ou diz perguntas. Quando não se abre a boca, a não ser pra dizer ‘sim, senhora’. Quando a vítima sobrevive. E goza! Quando não existe mais terra, muito menos jardim. Imagine a rosa! Maiakovski não imaginaria. Quando o Brasil perdeu o tom. Quando a mulher, um sorriso amarelo. Alguém já pediu ‘não me apareçam quando eu morrer’, e eu gostaria de exigir. Mas gostar é coisa que já se desconhece há muito. Dizia eu que a tolerância é quase a maior. Quase. Disse Machado de Assis, em Crônicas, que a diplomacia é a arte de gastar palavras, perder tempo, estragar papel, por meio de discussões inúteis, delongas e circunlocuções desnecessárias e prejudiciais. Quando evocar é covardia, mas, em compensação, o eu é uma ilusão. Logo, desnecessário justificar falta de coragem. Tão bom ser artista. Compreender não é uma questão, muito menos uma necessidade. No corpo e nos ditos estão todas as mentiras, por isso louvo a Freud e a Kafka. Evoco. Quando a angústia de ser emperra. E perplexidade perdura. Quando a melancolia já tomou vergonha na cara, e não tem a cara de aparecer mais. Quando desejar um filho é uma questão de tédio. Quando ser politicamente incorreto é a questão. De ser, é claro. Metafisicamente falando. Quando o poeta é um ressentido, e o mais são nuvens. Ah, Drummond, salva-me de ti! (Fernando Pessoa não vai se importar, é claro). E como é ridículo ter uma eternidade numa música chamada ‘Quando’ do Roberto Carlos. Mas nunca se esqueça: para todo Roberto há um Erasmo. Ou noutras palavras (ou melhor, nas palavras do meu pai): sempre que nasce um sapo, nasce uma sapa. Pior: Wolf já sentenciou: sua eternidade está no trapézio. Agradeça, e abaixe a cabeça.

Magda Maria Campos Pinto

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