quarta-feira, 26 de outubro de 2011

NOS TEMPOS DA BRUTALIDADE


 7.

Vai chover. Enfim. Vai chover, que bom! Não havia mais ar; o calor, a poluição, a seca, as queimadas criminosas, o excesso de lixo, os restos...  Acabou o ar. E todo mundo adoece. Mas os hospitais não têm vagas. Muito menos, médicos. Nem pessoal, nem medicação. Há muita medicação nas farmácias, excesso de medicação. Sobra. Falta dinheiro, mas na disputa de mercado não é difícil encontrar um precinho melhor.
A chuva chegou. Tão bonita a chuva... Beleza interrompida. Vieram os ventos, as buzinas, os atropelamentos, os engarrafamentos. As árvores tombadas pela violência dos ventos aprisionados nos corredores de concreto entre os edifícios da grande cidade. Apagam-se as luzes. Fios cortados. E a chuva, que mal chegou, não encontra a terra, seu destino a fecundar. Entupidos os bueiros. Sem saída, a água sobe. Invade casas, corre pelos corredores asfaltados cheios de carros e de lixo. Não há espaço, se torna tormenta, é tragédia.
Grandes notícias: tragédias. SENSACIONAIS. Urgências. Mortes. Desabamentos. Lágrimas e lágrimas. A televisão gosta. Os patrocinadores também. Os desvalidos também, pois a esperança – última a morrer – move a expectativa de ‘alguém vai me reconhecer’ ou ‘alguém vai me ajudar’. Os construtores também gostam: ‘bons negócios à vista’.
Eu não gosto.
Eu gosto de chuva. Que molhava a mata. Que fecundava a terra. Que tamborilava no telhado.
- Wolf? Você está me ouvindo?
- Sim, pensando na Turquia, em Orhan Pamuk, e... se você inventasse o museu da memória? 

Magda Maria Campos Pinto

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