sábado, 1 de outubro de 2011

Outubro: festa de Drummond e nossa

 
NASCER DE NOVO


Nascer: findou o sono das entranhas.
Surge o concreto,
A dor de formas repartidas.
Tão doce era viver sem alma, no regaço
Do cofre maternal, sóbrio e cálido.
Agora, na revelação frontal do dia,
A consciência do limite,
O nervo exposto dos problemas.


Sondamos, inquirimos
em resposta:
Nada se ajusta, desse lado,
À placidez do outro?
É tudo guerra, dúvida
No exílio?
O incerto e suas lajes
Criptográficas?
Viver é torturar-se, consumir-se
À míngua de qq razão de vida?
Eis que um segundo nascimento,
Não adivinhado, sem anúncio,
Resgata o sofrimento do primeiro,
E o tempo se redoura.
Amor, este o seu nome.
Amor, a descoberta de sentido no absurdo de existir.


O real veste nova realidade,
A linguagem encontra seu motivo
Até mesmo nos lances de silêncio.
A explicação rompe as nuvens,
Das águas, das mais vagas circunstâncias
: não sou eu, sou o Outro
Que em mim procurava seu destino.
Em outro alguém estou nascendo.


A minha festa,
O meu nascer poreja a cada instante
Em cada gesto meu que se reduz
A ser retrato,
Espelho, semelhança
De gesto alheio aberto em rosa.

In Carlos Drummond de Andrade, Nova Reunião, A paixão medida, José Olympio Editora, RJ, 1987.

(Drummond e sua Julieta)

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