quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Urgentemente Cecília!



CANÇÃO

Não sou a das águas vista
Nem a dos homens amada;
Nem a  que sonhava o artista
Em cujas mãos fui formada.
Talvez em pensar que exista
Vá sendo eu mesma enganada.

Quando o tempo em seu abraço
Quebra meu corpo, e tem pena,
Quanto mais me despedaço,
Mais fico inteira e serena.
Por meu dom divino, faço
Tudo a que  Deus me condena.

Da virtude de estar quieta
Componho o meu movimento.
Por indireta e direta,
Perturbo estrelas e vento.
Sou a passagem da seta
E a seta, - em cada momento.

Não digas aos que encontrares
Que fui conhecida tua.
Quando houve nos largos mares
Desenho certo de rua?
E de teres visto luares,
Que ousarás contar da lua?

In Flor de Poemas, Cecília Meireles, Nova Fronteira,RJ, 1983.


Nenhum comentário:

Postar um comentário