terça-feira, 29 de novembro de 2011

Nas invisíveis asas da poesia...: ao meu amor


 John Keats nasceu em Londres em 31 de outubro de 1795, e morreu em 23 de fevereiro de 1821, em Roma, aos 25 anos, portanto. Pertence à chamada segunda geração romântica, e denominado por muitos ‘o último dos românticos’. Nomeações à parte, o fato é que Keats é um dos maiores nomes da imensa, maravilhosa e diversa poesia inglesa. Marcada por um belíssimo fluxo sensual, a poesia de Keats parece ser a própria fonte do lirismo requintado e puro.
Nasceu pobre, filho de um cavalariço, foi muito cedo para uma escola de cirurgiões, onde estudou por cinco anos. Desde logo já se interessou pela literatura, influenciado pelo estudo de história e idiomas, e fascinado Grécia Antiga. Trabalhou como assistente de cirurgião por algum tempo no Guy’s Hospital, antes de abandonar a medicina pela literatura. Em vida, seu trabalho literário não foi bem recebido pelo público, nem pela crítica, entretanto manteve uma produção copiosa. Freqüentou e fez amizades no, então, efervescente meio literário londrino.
John era o mais velho de cinco irmãos; seu pai faleceu, de uma queda de cavalo, quando tinha apenas oito anos. Após um rápido segundo casamento infeliz sua mãe voltou para a casa da mãe com os cinco filhos; mas veio a falecer quando John tinha 14 anos. A avó deixou economias para os netos, sob administração de certo tutor que não as transferiu para os herdeiros (uma das razões alegadas foi exatamente o interesse de Keats pelas letras em troca da medicina). Ele começou a publicação de seus poemas, entre os primeiros ‘Primeira Leitura do Homero de Chapman’, onde Jorge Luis Borges encontra a mais pura expressão da poesia. Keats passou uma temporada na ilha de Wight, onde escreveu o longo poema Endymion e o soneto No mar. Depois permanece uma temporada em Teignmouth, sudoeste da Inglaterra, cuidando do irmão Tom que já apresentava sinais de tuberculose. Em seguida inicia uma caminhada até a Escócia, com o amigo Charles Brown, durante a qual escreve seus poemas para Burns. De volta, cuida novamente do irmão, que morre em 1818, aos 19 anos. John foi morar com Brown, em Londres (Hampstead, onde hoje existe o museu de Keats); aqui o poeta conheceu a vizinha Fanny Brawne, com quem viveu uma história de amor digna de um grande romântico. Escreveu cartas apaixonadas e poemas incessantemente (suas cartas para os irmãos e amigos mostram impressionante acuidade crítica e filosófica). Começou a apresentar os sinais da tuberculose, que evoluía rapidamente. Em setembro de 1820, os amigos entenderam que ele devia ir para a Itália para evitar o inverno inglês. Em 30 de novembro do mesmo ano, escreve a Brown: ‘Tenho um sentimento permanente de minha verdadeira vida ter passado e de que tenho uma existência póstuma’. Morre em Roma em 23 de fevereiro de 1821, onde está enterrado sob a inscrição que ele mesmo escreveu: ‘Aqui jaz alguém cujo nome estava escrito em água’. Para ele, Shelley escreveu o célebre Adonais. Uma de suas cartas de amor escrita para Fanny Brawne, em 1820, foi vendida por 86.000 libras (110.000 euros), um recorde para um escrito do poeta, segundo a casa londrina Bonhams.  Nela, o poeta se descreve como "um pobre prisioneiro" que não pode "cantar em uma jaula": a tuberculose o impedia de abraçar a jovem. A carta foi adquirida pela prefeitura de Londres para o acervo do museu de Hampstead.
Essa história de amor é contada no filme "Bright star" (aqui, Brilho de uma paixão), de Jane Campion (2009), que retoma o título de um de seus poemas mais conhecidos. É um lindíssimo filme, e ótima iniciação a Keats.
O protagonista fica por conta de Ben Whishaw, um dos melhores jovens atores desta geração (O perfume, I’m not there, A tempestade, entre outros). De fato, Ben já acumula um poderoso currículo (teatro – foi chamado de jovem Laurence Olivier por sua interpretação do Hamlet -, TV e cinema) apesar de sua juventude. E está fantástico nesse filme ótimo que consegue fina sintonia com a poesia de Keats. A fotografia, a direção, a trilha e o elenco conseguem impressionante conjunto, e funcionam como uma orquestra muito bem afinada, tocando bela sinfonia poética. Veja Brilho de uma paixão, e aprenda poesia.

A MORTE
I
Pode a morte ser sono, se a vida não é mais que sonho,
     E se as cenas de êxtase passam qual espectros?
Os prazeres transitórios semelham visões,
     Mas pensamos a morte como a grande dor.
II
Como é estranho o vagar do homem na terra,
      Em sua vida maldita não pode desvencilhar
O rude caminho; nem ousa sozinho entrever
     Seu augúrio futuro que não é senão despertar.

In Nas Invisíveis asas da poesia, John Keats, edição bilíngüe, Iluminuras, SP, 1998.

 

Mais um sonho

 
 (O beijo, de Gustav Klimt)

Gustav Klimt é excepcional, um dos maiores artistas da modernidade, marcou exatamente a transição século XIX/XX, pode-se dizer. Nasceu e morreu em Viena (1862-1918). Foi revolucionário, saiu da academia, e tem sua obra marcada pelo simbolismo. Desde a adolescência ligou-se às artes decorativas, e permaneceu ligado à ‘arte historicista’ por muito tempo, e na qual conseguiu notoriedade.  Tratava-se de ‘pintar e desenhar a partir de um original histórico’. Ao lado de seus dois irmãos desenhistas participou com sucesso da pintura decorativa de grandes construções que surgiam em Viena naquele momento (tempo de ouro da cultura austríaca), incluindo o Teatro Imperial. Em 1883 foi contratado para executar os painéis decorativas da Universidade de Viena e ao criar um painel para a faculdade de filosofia, sob a influência de Schopenhauer, em que representa o mundo como ‘Vontade, em que os seres vagueiam’, estabeleceu novo patamar para esta arte. Deixou então a ‘pintura histórica’, recusando-se à glorificação das ciências racionais. Nascia o movimento que ficou conhecido como ‘Secessão de Viena’. Neste momento, Klimt expõe a cultura patriarcal de modo crítico e declara uma concepção de mundo ‘com uma nova cultura feminina’. Estabeleceu-se longo período de conflito com o Estado; ele rompe o contrato, devolve os honorários e readquire os painéis (A Medicina, A Filosofia e A Jurisprudência) e vai para Berlim. Os quadros são retomados pelo Estado e, em maio de 1945, são queimados pelas tropas nazistas em retirada. No entanto, a obra de Klimt passou por várias fases, integrou-se a vários movimentos, e finalmente marcou-se por importante elemento erótico. Desta fase, surgem mais de três mil desenhos. Morreu em fevereiro de 1918, meses antes do fim do Império Austro-Húngaro.

O cineasta Raoul Ruiz dirigiu em 2006, o filme "Klimt", com John Malkovitch no papel do protagonista, e que não vimos ainda.

 

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Para o Marco:


 Dia 28 de novembro é o dia brasileiro do soldado desconhecido:
Túmulo do soldado desconhecido é o nome que recebem os monumentos erigidos pelas nações para honrar os soldados que morrem nas guerras e não têm seus corpos identificados. Por vezes é um túmulo simbólico, também chamado cenotáfio, palavra de origem grega que, etimologicamente, significa ‘túmulo vazio’. Este tipo de homenagem data do século XIX, com o ‘Soldado de Infantaria’, 1849, na Dinamarca, e o ‘Morto Desconhecido’, 1866, da Guerra Civil Americana. Em 1920, o Reino Unido enterrou um combatente desconhecido na Abadia de Westminster, em nome de todos os seus exércitos; logo outros países seguiram a idéia e criaram seus monumentos. Um dos mais famosos é o que foi instalado sob o Arco do Triunfo em Paris, em 1921, para homenagear os mortos em batalhas da Primeira Guerra Mundial. No Brasil, existe o Monumento Nacional aos Mortos da Segunda Guerra Mundial, no Rio de Janeiro. Outro cenotáfio que se destaca no Brasil está no Museu da Inconfidência, em Ouro Preto, criado por Getúlio Vargas, em 1936, com a intenção de resgatar os restos mortais dos inconfidentes, mortos exilados na África, tempo também da criação do IPHAN (órgão de defesa do patrimônio histórico e artístico brasileiro).

 

Um sonho




ÉDIPO E O ENIGMA
Jorge Luis Borges

Quadrúpede na aurora, alto no dia
E com três pés errando pelo inútil
Âmbito da tarde, assim via
A eterna esfinge seu inconstante irmão,
O homem, e com a tarde um homem veio
Que decifrou aterrado no espelho
Da monstruosa imagem, o reflexo
De sua declinação e seu destino.
Somos Édipo e de um eterno modo
A longa e triple besta somos, tudo
O que seremos e o que fomos.
Aniquilar-nos ia ver a ingente
Forma de nosso ser; piedosamente
Deus nos prepara sucessão e olvido.

 
(Édipo resolve o enigma da esfinge (1808), Ingres)
(Jean-Auguste Dominique Ingres, pintor e desenhista francês, nascido em 1780 e morto em 1867;  um artista da transição do neoclassicismo para o romantismo. Hoje, é tido como um dos grandes nomes da pintura do século XIX).

ESFINGE

Monstro feminino a quem se atribuía cabeça de mulher, peito, patas e cauda de leão, mas que estava provido de asas como uma ave de rapina. A esfinge está ligada, sobretudo, à lenda de Édipo e ao ciclo tebano. É já a este título que figura na teogonia hesiódica. Passa por vezes por filho Equidna e Ortro, o cão de Gérion. Nesse caso, é irmão do leão de Némea. Mas dizia-se também que seu pai era o monstro Tífon. Mais curiosa é a tradição que fazia da Esfinge uma filha natural de Laio, rei de Tebas, ou então do beócio Ucalegonte.
Este monstro foi enviado por Hera contra Tebas para castigar a cidade pelo crime de Laio, que amara o filho de Pélops, Crisipo, em amores culpados. Estabeleceu-se numa montanha situada a oeste de Tebas, nas proximidades da cidade. Daí, assolava a região devorando os seres humanos que lhe passavam ao alcance. Sobretudo, apresentava enigmas aos viajantes, que não os conseguiam decifrar. Então, matava-os. Somente Édipo conseguiu responder-lhe. Desesperado, o monstro atirou-se de um rochedo e matou-se. Dizia-se também que Édipo o trespassara com a sua lança. 

In Dicionário da Mitologia grega e romana, Pierre Grimal, Bertrand Brasil, RJ, 1992.

domingo, 27 de novembro de 2011

ALAIN DE BOTTON. A gente gosta.

 
 
Já citamos Alain de Botton mais de uma vez aqui no Clube (ver postagem de 06/12/2009); inclusive indicamos, em especial, um de seus livros, um romance chamado O movimento Romântico (dos que li, o que mais gosto).  De Botton é um interessantíssimo intelectual de nossos dias, e se diferencia pela ousadia. Esteve no Brasil durante a última semana, entre Porto Alegre, São Paulo e Rio, e causou!, diriam meus amiguinhos adolescentes. Deu uma entrevista à FOLHA, que vocês podem ler no link. Acho que vale a pena conhecê-lo, repito. Gostaria hoje de enfatizar um de seus projetos SCHOOL OF LIFE, que me parece fantástico. Acho também ligeiramente pretensioso, mas sou amigável com as pretensões; ou melhor, as considero fundamentais. Enfim, é um projeto educativo que não oferece disciplinas estabelecidas, mas opções e formas diversas, que variam com o tempo, se renovam, se transformam etc. Por exemplo:
‘Como ser cool’, ‘Como lidar com a morte’, ‘Como aprender a conversar’, ‘Quão necessário é um relacionamento’, ‘Como passar tempo sozinho’, ‘O significado da amizade’ e por aí afora vai. Isso sob forma de almoços, pic-nics, saraus, encontros diversos. Existem também as ‘palestras’ usuais, um serviço chamado ‘bibliotheraphist’, espécie de clube do livro, e muito mais. E tudo é opcional, naturalmente. Pesquisem, vocês vão gostar. E agora, ele vai trazer esse projeto para o Brasil, parece que em julho/2012. Seja muito bem vindo. Mas  já estamos fazendo isso por aqui; do nosso tamanho, e do nosso jeito. E de fato e verdade, acreditamos somente neste tipo de opção educadora.

 

sábado, 26 de novembro de 2011

Anúncio do Começo

 

 Já temos nosso plano de vôo para os próximos 13 meses. Fazemos e queremos arte, e na licença poética, temos, entre outras licenças, outros tempos. Nossa intenção irá se ocupar nos próximos meses com o COMEÇO. Nossa bússola  nesse percurso será: SONHOS. Nossos mestres principais nessa hora: Jorge Luís Borges, Freud, Kurosawa e Gustav Klimt. (virão muitos outros durante o percurso). Preparem seus corações, portanto. Vamos sonhar. E no mais, feliz ano velho pra todo mundo. E ainda:


O tempo passa? Não passa

(Carlos Drummond, só pra variar)

O tempo passa? Não passa
no abismo do coração.
Lá dentro, perdura a graça
do amor, florindo em canção.

O tempo nos aproxima
cada vez mais, nos reduz
a um só verso e uma rima
de mãos e olhos, na luz.

Não há tempo consumido
nem tempo a economizar.
O tempo é todo vestido
de amor e tempo de amar.

O meu tempo e o teu, amada,
transcendem qualquer medida.
Além do amor, não há nada,
amar é o sumo da vida.

São mitos de calendário
tanto o ontem como o agora,
e o teu aniversário
é um nascer a toda hora.


E nosso amor, que brotou
do tempo, não tem idade,
pois só quem ama escutou
o apelo da eternidade. 
  
 
(As três idades da mulher, detalhe, Gustav Klimt)

CUIDANDO... Do começo:


“(...) Quero dizer, eles escreviam sobre poesia como se a poesia fosse uma tarefa, e não o que é em realidade: uma paixão e um prazer”.
“(...) E a vida, tenho certeza, é feita de poesia. A poesia não é alheia – a poesia, como veremos, está logo ali, à espreita. Pode saltar sobre nós a qualquer instante”.
“(...) Pois as coisas perfeitas na poesia não parecem estranhas; parecem inevitáveis”.
“(...) Devo confessar que não considero um livro um objeto imortal a ser tomado em mãos e devidamente cultuado, mas antes uma ocasião pra a beleza. E assim tem de ser, pois a linguagem está mudando o tempo todo”. 

               In Esse Ofício do Verso, Jorge Luis Borges, Companhia das Letras, SP, 2000.

convite: para conferir

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Senhoras e Senhores, O PALHAÇO

 

Vi O PALHAÇO, do Selton Mello. Muito bom. Quase ótimo. Os valores do filme estão nos mais diversos aspectos, a começar pela coragem e firmeza do Selton para roteirizar, dirigir e atuar. E em todos os riscos se sai muito bem. Muitíssimo bem. É emocionante acompanhar sua reflexão, dos dissabores aos amores, do que-fazer humano (que fazer?) e com um determinado humor (muitíssimo bem reconhecido da alma mineira). O filme certamente se faz mais saboroso para os mineiros, é inegável. Isto em nada o separa da universalidade que, como boa obra de arte, consegue. Mas é certo que, da inflexão às soluções, a alma mineira ‘tá lá’. Amei.
 
As imagens são primorosas, os atores ótimos – grande Paulo José! Destacam-se também o cuidado, o diálogo minimalista, as sutis homenagens e as citações subliminares.  Mas o som e a trilha deixam a desejar. Infelizmente, pois, com certeza, impediu que O PALHAÇO brilhasse com toda a sua potência. É isso, o Selton é maravilhosamente potente. Vem mais, sei que vem.  Recomendo, humildemente, O PALHAÇO. Tipo, trem bão,uai!
 

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Hoje

La casa

No está en el mar mi casa/ ni en el aire/
En la gracia de tus palabras vivo/

 A casa

Não está no mar a minha casa / nem no ar/
Na graça de tuas palavras eu vivo/

In Amor que serena, termina?, Juan Gelman, Record, RJ, 2001.

Grupo de estudos:


De Sarah para Giovana, Ana e Marilu:

Autocontrole: para sobreviver num mundo cheio de idiotas.

p. s: vide Freud. Beijo, Magda

Aprendizado:

 "FANTASIA & REALIDADE
As crianças não brincam de brincar. Brincam de verdade. Assim as fantasias do poeta, que não o são no sentido que lhe atribuem os burgueses e os intelectuais materialistas. Um dia numa dessas pesquisas que às vezes elas fazem me perguntou uma pequena colegial se os Anjos existiam. Respondi-lhe que, em vista da freqüência com que  costumavam aparecer em meus poemas, deviam mesmo existir. Depois fiquei a pensar se a minha resposta não seria mais profunda do que parecia... Pois nisto de criação literária cumpre não esquecer – guardada a infinita distância – que o mundo também foi criado por palavras."

In Porta Giratória, Mário Quintana, Editora Globo, Edição Centenário, 1994.
 

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

A arte das musas

Foi ontem, mas só podemos falar hoje... então:

22 de novembro é comemoração internacional do DIA DA MÚSICA E DO MÚSICO, justificada a escolha da data por consideração à Santa Cecília, uma personalidade popular, que teria vivido no século III d. C, em Roma, de família nobre, sido perseguida e martirizada em nome de sua conversão ao cristianismo, sua capacidade de atrair pessoas à sua fé, inclusive os poderosos nobres romanos. Sua relação com a música é, entre outras atribuições que lhe são dadas, polêmicas. A versão mais comum, é que teria entoado um canto a Deus, em momentos cruciais de sua existência, incluindo sua execução (decapitação que não pode ser consumada já que, apesar de o carrasco ter por três vezes executado o ato, a cabeça não se separou do corpo; e ela permaneceu ferida no solo, e na mesma posição, por três dias, durante os quais continuou exortando a todos à nova fé). Depois de enterrada, foi exumada por duas vezes, atravessando as mudanças históricas, a última delas no século XVI, sendo encontrada, na mesma posição, e sem deterioração. Está em Roma, na Basílica dedicada a Santa Cecília. 
 
 
  (cripta de Santa Cecília, escultura de Stefano Maderno) 


Mas falemos da música também sob outro prisma (certamente, são infinitos...). As Musas, na mitologia grega, na versão mais popular, são filhas de Zeus e Mnemosine (personificação da Memória) e são nove irmãs, filhas de nove noites de amor. Aparecem em diferentes ciclos e genealogias da mitologia grega, não têm um ciclo lendário próprio, interferindo em todas as grandes festas e eventos ao longo dos períodos históricos. Cada uma tem sua própria ventura e aventura amorosa. De uma forma ou doutra aparecem ligadas a todas as concepções filosóficas sobre o primado da Música no Universo. As Musas não são somente as Cantoras divinas, mas também presidem o Pensamento em suas diversas formas. Hesíodo as convoca, pedindo-lhe inspiração e sabedoria para realizar seus cantos e dizer a verdade. É ele quem diz que um cantor, isto é, um servo das Musas, estará livre das preocupações e desgostos. O mais antigo canto das Musas foi pela vitória dos Olímpicos sobre os Titãs, ou seja, para celebrar o estabelecimento da ordem, pela terceira geração.  Como já se disse são diversas as versões que se referem a elas: podem ser de dois grupos na Trácia, três em Delfos (como as Cárites) e sete em Lesbos. Classicamente, estabeleceram-se nove, que aos poucos, foram adquirindo função específica, a saber:

 
(Atena e as Musas)

Calíope, primeira em dignidade, musa da poesia, mãe de Orfeu.
Clio, musa da História.
Polímnia, musa da pantomima.
Euterpe, musa da música.
Terpsícore, musa da poesia ligeira e da dança.
Érato, musa da lírica coral.
Melpómene, musa da tragédia.
Tália, musa da comédia.
Urânia, musa da astronomia.

Fonte: Dicionário da mitologia grega e romana, Pierre Grimal, Bertrand Brasil, RJ.

 
 (Apolo e as Musas)

Sim, somos.

 
“- Você trazia no íntimo uma imagem da vida, uma fé, uma exigência; estava disposto a feitos, a sofrimentos e sacrifícios, e logo aos poucos notou que o mundo não lhe pedia nenhuma ação, nenhum sacrifício nem algo semelhante; que a vida não é nenhum poema épico, com rasgos de heróis e coisas parecidas, mas um salão burguês, no qual se vive inteiramente feliz com a comida e a bebida, o café e o tricô, o jogo de cartas e a música de rádio. E quem aspira a outra coisa e traz em si o heróico e o belo, a veneração pelos grandes poetas ou a veneração pelos santos, não passa de um louco ou de um Quixote. Pois bem, meu amigo, comigo também foi assim! Eu era uma jovem bem dotada, com vocação para viver dentro de um elevado padrão, para esperar muito de mim mesma e para realizar grandes feitos. Poderia ter um belo futuro, ser a esposa de um rei, a amante de um revolucionário, a irmã de um gênio, a mãe de um mártir. E a vida só me permitiu ser uma cortesã de mediano bom gosto, o que já se vai tornando bastante difícil para mim! Foi isso o que me aconteceu. Fiquei algum tempo desconsolada e procurei com afinco a culpa em mim mesma. A vida, pensava eu, sempre acaba tendo razão, e se a vida se ria dos meus belos sonhos, pensava, era porque meus sonhos tinham sido estúpidos e irracionais. Mas isso não me valeu de nada. Mas como tivesse bons olhos e ouvidos, e, além disso, fosse curiosa, examinei a vida com certa atenção, observei meus vizinhos e conhecidos, mais de cinqüenta pessoas e destinos,e percebi então, Harry, que meus sonhos estavam certos, estavam mil vezes certos, assim como os seus. Mas a vida,a realidade não tinha razão. O fato de uma mulher da minha classe não ter alternativa senão envelhecer de uma maneira insensata e pobremente junto a uma máquina de escrever a serviço de um capitalista, ou casar-se com ele por seu dinheiro ou converter-se numa espécie de meretriz, era tão injusto quanto o de um homem como você, solitário, tímido e desesperado ter de recorrer à navalha de barbear. Talvez que a miséria em mim fosse mais material e moral, e em  você  mais espiritual; mas o caminho era o mesmo. Pensa que eu não pude reconhecer sua angústia diante do fox-trote, sua repugnância pelos bares e pelos dancings, sua hostilidade para com a música de jazz e tudo o mais? Compreendia e muito bem, como compreendia seu horror pela política, sua tristeza pelo palavreado vão e a conduta irresponsável dos partidos e da imprensa; seu desespero diante da guerra, as passadas e as futuras; pela maneira como hoje se pensa, se lê, se edifica, se compõe música, se celebram as festas e se educa! Você tem razão, Lobo da Estepe, mil vezes razão, e, contudo, terá de perecer. Vive demasiadamente faminto e cheio de desejos para um mundo tão singelo, tão cômodo, que se contenta com tão pouco; para o mundo de hoje em dia, que lhe cospe em cima, você tem uma dimensão a mais. Quem quiser hoje viver e satisfazer-se com sua vida, não pode ser uma pessoa assim como você ou eu. Quem quiser música em vez de balbúrdia, alegria em vez de prazer, alma em vez de dinheiro, verdadeiro trabalho em vez de exploração, verdadeira paixão em vez de jogo, não encontrará guarida neste belo mundo...”

In O Lobo da Estepe, Hermann Hesse, Civilização brasileira, 12 ª edição, 1977.

 

terça-feira, 22 de novembro de 2011

2 º p.s de Lembrete:


POSTAL

Nenhum mar.
Um domingo. Um tridente.
Dois cavalos. Meu coração segue cego e feliz
Como
Carta
Extraviada.

P.S de lembrete:




“(...) o que de melhor colhi de sua conversa foi que a experiência nos persuade de que os nossos melhores pensamentos, votos e desígnios são irrealizáveis e que se considera como inexperiente, sobretudo o homem que nutre tais fantasias e as exprime com calor. Mas como homem sincero e corajoso, garantiu-me  que ele próprio não havia renunciado completamente a essas fantasias e ainda se sentia bastante feliz por ter conservado um pouco de fé, de amor e de esperança. (...) Como me visse surpreso ante essas voluptuosidades insensatas e perturbado ao pensamento dos males que as haviam seguido, fez-me observar que o que se pedia de um homem experimentado era justamente que não se espantasse nem com uma coisa, nem com a outra,e que não se interessasse demasiadamente por isso. (...)
- Eis aí o que sucede com as palavras logo que são pronunciadas! Soam de maneira tão estranha, tão doida mesmo, que parece quase impossível encontrar nelas um sentido razoável. No entanto, poder-se-ia tentar.
E diante das minhas instâncias, prosseguiu com o seu ar circunspecto e risonho:
- Se permite que, para comentar e completar o seu amigo, eu prossiga à maneira dele, creio que ele quis dizer que a experiência consiste unicamente em passar por aquilo que não se desejaria experimentar: pelo menos, é nisso que vão dar as mais das vezes as coisas deste mundo.”

In Memórias: Poesia e Verdade, Primeiro volume, Goethe, Hucitec, Brasília, 2 ª edição.