terça-feira, 1 de novembro de 2011

Clube da Luta e correlatos...

Para Lucas, Rodrigo, Rafaela e Cíntia (e pra todo mundo que gosta de cinema, naturalmente)

1.     Violência é adoecimento do legítimo sentimento da raiva, representante civilizado do instinto de sobrevivência. Doença não tratada, evolui. Por vezes, exponencialmente. Caso típico da violência.

2.     A solução individual sobre o social é doentia; ignora o conflito inerente e criador do próprio sujeito. Este, é produto (não é produto final...) de um determinado social, que o precede.

3.     A solução individual pretende ser ‘precisa, exata, dogmática’; e só pode ser assim, na medida em que expressa o desejo do Um, que se põe como absoluto. Este será um indivíduo que é o oposto daquele que entendemos como ‘sujeito romântico’. Diremos que é o ‘indivíduo clássico’. À luz desse filme, podemos ver nossa titânica luta interna: Apolo x Dionísio? 

  
4.      CLUBE DA LUTA é um filme americano de 1999, dirigido por David Fincher, baseado no livro de mesmo nome, publicado em 1996, de Chuck Palahniuk. Temos Edward Norton, Brad Pitt (dirigido por Fincher também em Seven e A incrível história de Benjamim Button) e Helena Bonham Carter. O roteiro é de Jim Uhls. Contam que os realizadores o compararam a Rebel Without a Cause (aqui, Juventude Transviada, 1955), The graduate (aqui, A primeira noite de um homem, 1967) e a Clockwork Orange,(aqui Laranja Mecânica, 1971, baseado no romance de mesmo nome, de 1962, do inglês Anthony Burgess, e dirigido por Stanley Kubrick), comparações que, a meu ver, só procedem se olharmos por esse viés: clássico x romântico. E sendo assim, quero incluir nessa análise o ‘Le Dernier Tango à Paris’ (aqui, Último Tango em Paris, produção franco-italiana de 1972, dirigida por Bernardo Bertolucci). E teremos cinco filmes que, polêmicas, censuras, exageros e preconceitos à parte, ganharam do tempo a categoria de ‘cult’. Cinco pretendentes a sujeito. E fica assim a justificativa de, aqui e ali, encontrarmos a classificação: ‘drama romântico' para os cinco. Então, sim, para mim, Clube da Luta é um filme romântico. Ou melhor, que explicita no contexto sociocultural do fim do século vinte, a luta titânica do indivíduo pela sobrevivência como sujeito. Uma idéia romântica, sem dúvida. Uma solução desastrosamente clássica, digamos. 

5.     Hilário, e revelador, o potente, vigoroso (e bem irrigado, andaram dizendo um dia desses) pênis que se intromete entre as mãos dadas do casal (enfim, juntos!) na cena final, assistindo o apocalipse do sistema (brincadeirinha que o demoniozinho gostava de fazer com as criancinhas em seus filminhos infantis; aliás, bela intervenção metalingüística, eu diria). 

6.     Citação do diretor do filme: ‘Nós estamos destinados a ser caçadores e nós estamos  numa sociedade de compras. Não há nada mais para matar, não há nada para lutar, nada para vencer, nada para explorar. Nessa emasculação social deste homem comum (o narrador) é criado’. (...) ‘Era apenas a ideia de viver nesta ideia fraudulenta de felicidade. ’(...) Mas este filme não podia estar mais longe de oferecer qualquer tipo de solução’. 

7.     O roteirista explicou o filme como ‘comédia romântica’ porque, diz ele, ‘as personagens buscam uma relação saudável e revelam um comportamento pouco saudável, brusco um com o outro, pois estão psicologicamente no limite’.

8.     Citação de Edward Norton: “Decidimos bem cedo que eu começaria a passar fome à medida que o filme corria, enquanto que (o Brad Pitt) levantaria pesos e iria para as academias de bronzeamento; ele se tornaria cada vez mais idealizado enquanto eu desmoronaria”.

9.     O ‘EU’ idealizado é forte, liberado, sem conflitos, impulsivo, sedutor. O Id?

10.                       Citação de Brad Pitt: "Penso que há um mecanismo de autodefesa que afasta a minha geração de ter qualquer conexão ou compromisso honesto e real com os nossos sentimentos verdadeiros. Torcemos pelos times, mas não entramos em campo para jogar. Estamos tão preocupados com fracassos e sucessos - como se estas duas coisas fossem tudo o que te irão resumir no final".
11.                       A violência como chance para se experimentar sentimentos numa sociedade adormecida (o protagonista é desesperadamente insone, logo ele não pode sonhar... é preciso sentir algo, um sentimento, qualquer sentir ... então, a dor, o primeiro sentimento, o verdadeiro sentimento corporal) . E daí, por que não?, a violência como gozo, como repetição, numa sociedade que só conhece a dor e sua anestesia?

12.                       Sim, a meu ver, é um filme genial. Atores impecáveis. Esteticamente superior. Vai ser tema do próximo encontro do grupo de estudos. E desde já agradecemos o toque.

13.                        E prometemos falar, ainda neste mês, em SWEET NOVEMBER... porque ninguém é de ferro, drama romântico pra ninguém reclamar, e chorar à vontade, com bons atores, boa direção, boa trama... Vocês viram? (tipo, hora do chá...)

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