quarta-feira, 2 de novembro de 2011

De tudo se faz canção.... cantemos também a morte.


À MORTE

FLORBELA ESPANCA

Morte, minha Senhora dona Morte,
Tão bom que  deve ser o teu abraço!
Lânguido e doce como um doce laço
E, como uma raiz, sereno e forte.

Não há mal que não sare ou não conforte
Tua mão que nos guia passo a passo,
Em ti, dentro de ti, no teu regaço
Não há triste destino nem má sorte.

Dona morte dos dedos de veludo,
Fecha-me os olhos que já viram tudo!
 Prende-me as asas que voaram tanto!

Vim da Moirama, sou filha de rei,
Má fada me encantou e aqui fiquei
À tua espera... quebra-me o encanto!

VEM DOCE MORTE

HENRIQUETA LISBOA

Vem doce morte. Quando queiras.
Ao crepúsculo, no instante em que as nuvens
Desfiam pálidos casulos
E o suspiro das árvores – secreto –
Não é senão o prenúncio
De um delicado acontecimento.

Quando queiras. Ao meio-dia, súbito
Espetáculo deslumbrante e inédito
De rubros panoramas abertos
Ao sol, ao mar, aos montes, às planícies
Com celeiros refertos e intocados.

Quando queiras. Presentes as estrelas
Ou já esquivas, na madrugada
Com pássaros despertos, à hora
Em que os campos recolhem as sementes
E os cristais endurecem de frio.

Tenho o corpo tão leve (quando queiras)
Que a teu primeiro sopro cederei distraída
Como um pensamento cortado
Pela visão da lua
Em que acaso – mais alto – refloresça.

 QUANDO EU MORRER QUERO FICAR

MÁRIO DE ANDRADE

Quando eu morrer quero ficar,
Não contem aos meus inimigos,
Sepultado em minha cidade,
Saudade.

Meus pés enterrem na rua Aurora,
No Paiçandu deixem meu sexo,
Na  Lopes Chaves a cabeça
Esqueçam.

No pátio do Colégio afundem
O meu coração paulistano;
Um coração Ivo e um defunto
Bem juntos.

Escondam no correi o ouvido
Direito, o esquerdo nos Telégrafos,
Quero saber da vida alheia,
Sereia.

O nariz guardem nos rosais,
A língua no alto do Ipiranga
Para canta a liberdade.
Saudade...

Os olhos lá no Jaraguá
Assistirão ao que há-de vir,
O joelho na Universidade,
Saudade...

As mãos atirem por aí,
Que desvivam como viveram,
As tripas atirem pro Diabo,
Que o espírito será de Deus.
Adeus.


“Se me perguntarem como, quando surge a poesia em mim, eu teria que responder que de qualquer maneira. Só de uma maneira não: jamais decidi que ia escrever uma poesia agora ou depois do jantar – isso, jamais. Já fiz poemas  andando na rua, a pé, andando de bonde, de trem, de automóvel. Só não fiz de avião… A maioria dos meus poemas é ‘de memória’ provocados por experiências já passadas e que voltam transformadas em ‘estado de poesia’. Mas também já fiz muito poema em que o ‘estado de poesia’ se dava durante a experiência. Uns imediatamente depois da experiência, outros muito tempo depois. E outros não sei. Como preparo esse ‘estado de poesia’? Escolha muito pensada do assunto, notas tomadas por escrito, projetos formais, um verso que surge sozinho e fixa um ritmo, pensamento constante, andar a pé sozinho, ler muita poesia. E se sair que saia. Centenas de vezes não saiu. É então, como artista confeccionador da obra-de-arte, que eu corrijo, transformo, deformo, melhoro, pioro, maltrato, etc. Jamais  escrevi uma poesia por decisão de escrever.


(fragmentos de carta de Mário de Andrade a Henriqueta Lisboa)

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