segunda-feira, 21 de novembro de 2011

FIM DA SÉRIE DELÍRIOS


DELÍRIO EM VIENA

De fato, a princípio, estava no trabalho, e havia incômodo. Desconforto físico, melhor dizendo; e eu não me queixava, mas tentava mostrar aquilo que sentia com elegância e cuidado. A chuva era forte, invadia. Havia, ao mesmo tempo, a percepção de que não se importavam absolutamente com meu desconforto, era a negação de um e a indiferença de outro. Eu via tudo isso, e me agarrava a alguma elegância, considerando essa, a elegância, pedra fundamental. Em outra cena, e mesmo cenário, alguém disse: ‘eu pensei que era injusto, que não estava certo’, e logo em seguida acrescentou: ‘mas quando vi que você não havia mesmo feito o trabalho resolvi pagar... ’, eu pensei, ‘estranho, é contradição’ mas  vi o outro colocando o dinheiro no bolso que já estava cheio de notas. Mantive-me contida como se não tivesse visto nem ouvido quase alguma; mas como era impossível que eu não tivesse visto nem ouvido coisa alguma, a verdade é que me mantive como se tudo não fosse mentira. Foi então que apareceram pessoas, várias, e entre elas, crianças. Elas vinham dali mesmo, do redor, pois vi que o trabalho ficava numa casa bacana, alugada daquelas pessoas que viviam no redor, em casebres amontoados, eles tinham me alugado a casa maior. Dentre as crianças, uma começou a chorar; fui consolar e percebi que ela estava doente; era loura, com compridos cabelos lisos, olhos azuis e tinha nome de amiga. Eu a peguei no colo, e ela começou a vomitar; quis levá-la para os pais e dizendo-lhe que logo tudo ficaria bem, percebi ao mesmo tempo que mentia novamente, pois vi - sim, vi - que ela estava entupida de fezes, que sua barriga ia estourar, mas a criança respondeu com uma estranha voz de gente adulta: ‘eu já vomitei três vezes, isso não é só um mal estar’. Sai da casa carregando a criança, entrei no casebre dos pais que ficava nos fundos da casa alugada. Encontrei uma família enorme, vários filhos, pais, avós, todos louros dos olhos azuis, e judeus. Muito simpáticos, cordiais, eu lhes orientei sobre a filha e logo eles começaram a cuidar, seguindo meus os conselhos. Eu pensava: ‘aparentemente pobres e a filha tem um enorme esforço a fazer’. Disse que precisava voltar ao trabalho e me despedi, saí pela mesma porta e tentei voltar à casa grande. Vi-me atravessando a porta e, surpresa, me encontrei diante de longo e estreito caminho que cortava a mata e seguia para o horizonte. Estranhei bastante, aquele era um caminho para outra casa, para a qual, a princípio, eu não desejava ir. Mas segui caminhando, intrigada mas confiante, pois eu queria voltar ao trabalho. Sempre gostei de caminhar, pensei. E logo vi nuvens se reunindo, tal como se reuniram à janela do banheiro da casa de minha avó, onde eu gostava de brincar de sereia, e naquele dia, elas tomaram a forma do próprio Deus para me censurar. Mas, hoje, vendo as nuvens se reunirem disse a mim mesma: não sou mais criança. E segui meu caminho, descontente com a distância absurda que se me apresentava. E então surgiu nos seus céus, disfarçados de nuvens, uma legião de deuses. Com alguma ironia pensei, não deveriam ser flamejantes? Antes que eu acabasse de pensar, trovejou um trovão com ares triunfantes. ‘O fato é que sua mãe te odeia, e não tem a menor importância se ela sabe disso ou não, fato é fato’. Trêmula, lembrando-me de que não era mais criança, busquei pelo trovão. Era uma nuvem com cara de deus, mas era Nietzsche, eu pensei, pelo bigodão, parece. E pensei também, esse cara sempre foi um arrogante, e trovejou novamente: ‘posso listar os fatos’. Olhei enfezada, irada, pronta para explodir, e reparando bem, o tal bigodão estava bem acompanhado, e agora não dava pra perceber quem trovejava, podia ser qualquer um. Entrevi muitos: Freud, Heidegger, Benjamin, e até Carlos Drummond, que zona!, pensei eu, e desisti de distinguir aquela turba, feita de nuvens, e de arrogância, e eu berrei de cá: ‘quero os fatos’.
E os fatos começaram a chover: ‘a sua mãe te odeia’, ‘a sua mãe te odeia’, ‘a sua mãe te odeia’, ‘a sua mãe te odeia’. Era a canção da chuva nas pedras do caminho, nas folhagens da mata, nas ondas do vento. Eu caminhava e sentia a chuva na pele, eu caminhava e avançava, mas ainda estava longe o horizonte. Trovejava, ventava, relampejava e choviam os fatos. E aumentava minha ira. Totalmente enfezada repeti para mim mesma que não havia mais criança alguma, querendo isso dizer que estava decidida a eliminar qualquer um, ou a todos. Disposição não me faltava. Houve então outro trovão em diferente tom: ‘a solução para tal é você deixar a terra, que está absolutamente contaminada, e criar outra terra para você’. Entre raios me partam e vão vocês todos à merda, eu vomitei: ‘Terra por acaso quer dizer planeta? Se for, saiba que eu prefiro um corpo celeste mais digno, se é que existe’. Outro trovão: ‘Tipo?’. E eu: ‘Sem mãe, uai!’. Houve risadas. Puta da vida, resolvi acabar com aquela palhaçada, e sentei à beira do caminho. Ordenei que se fizesse sol. E dei de pensar que merda de trabalho era aquele. Ofereceram-me carona, disse ‘não caio mais nessa’. Convidaram para uma caminhada, disse ‘já fiz’. Quiseram fazer-me companhia, dispensei. Lembrei-me: cresci. E vi que esse era um bom lugar para se nascer. Mas convencida que nascer é mero começo. E sendo assim, pensei, melhor começo eu farei. Facilitando o inevitável fim.

Magda Maria Campos Pinto
 

Nenhum comentário:

Postar um comentário