sexta-feira, 4 de novembro de 2011

HERMANN HESSE


“Hesitaria em transmiti-las a outrem se nelas visse apenas as fantasias mórbidas de um pobre e solitário doente do espírito. Mas nelas vejo algo mais: um documento da época, pois a enfermidade anímica de Haller é, hoje o percebo, não o capricho de um solitário, mas a enfermidade do próprio tempo, a neurose daquela geração a que pertencia Haller, neurose que não atacava em absoluto os débeis e insignificantes, mas precisamente os fortes, os mais espirituais, os mais fortes.

Estas anotações – e é indiferente saber se nelas existe uma grande ou pequena dose de realidade - são uma procura, não de vencer a enfermidade da época com rodeios ou paliativos, mas um intento de converter a própria doença em objeto de interpretação. Significam literalmente uma jornada pelo inferno, uma caminhada algumas vezes angustiosa, outras cheia de entusiasmo através do caos de um mundo anímico tenebroso, caminho percorrido com a vontade de atravessar o inferno, de oferecer a face ao caos, de padecer o mal até o fim’.

In O lobo da estepe, Hermann Hesse, Civilização Brasileira, 1977.

Hermann Hesse (2 de julho de 1877 - 9 de agosto de 1962)

p.s: obrigada, Ana Maria.

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