domingo, 13 de novembro de 2011

MOISÉS NÃO SE LEVANTARÁ... uma leitura de ‘O Moisés de Michelangelo’, de Freud


O texto de Freud sobre o Moisés de Michelangelo apresenta-nos interessantes contribuições à compreensão psicanalítica dos processos mentais; nele encontramos também traços fortes da personalidade de Freud e da relação com a psicanálise, e ainda, nos deparamos com o amor e o temor de Freud pela arte. A obra de Michelangelo fascinava-o, mas apesar da tentação, não vamos aqui especular as razões desse fascínio. Existem algumas razões óbvias, outras mais subliminares, mas certamente são tantas que não cabem nessa senda de agora. Portanto, vamos apenas citar alguns dados objetivos: ele escreveu à Marta, sua esposa, e a Fliess, o colega/amigo/analista, sobre seu encantamento com a estátua de Michelangelo. Durante um período em que esteve em Roma visitou-a diária e obsessivamente, observando-a vagarosa e detalhadamente. Leu e releu os estudos sobre a obra. Examinou os ditos, os contraditos e as especulações. Encontrou na análise de um crítico de arte, uma semelhança com o processo psicanalítico, no qual também deixamos de lado a montanha de tolices que falamos para nos ater aos detalhes, onde se esconde a verdade. Escreveu o artigo com suas próprias observações, fez uma interpretação da obra, e o publicou anonimamente em 1914. Só o assumiu em 1927. O crítico era o italiano Morelli que, a princípio, também publicava sob um pseudônimo russo, e propunha o reconhecimento da autenticidade de uma obra de arte pela observação dos detalhes (orelhas, narizes e matizes, e outros pequenos pontos que os falsificadores não prestam atenção). Freud estudou a biografia do escultor, a circunstância histórica (sob o mando do poderoso, polêmico e belicoso papa Júlio II que, entre outras, ratificou o tratado de Tordesilhas, influenciando diretamente a história destes campos de além mar), examinou a intenção do trabalho – o túmulo do próprio papa– e enfrentou seu fascínio. Desculpando-se por não ser um expert em arte e declarando-se seu amante,- em especial da escultura e literatura -, Freud chama atenção para a idéia, quase unânime, de que Moisés apresenta-se numa atitude irada, colérica, e que está prestes a se levantar para quebrar as tábuas da lei, pois o artista o teria representado no instante em que ele, descido do monte com as tábuas recebidas diretamente de Deus, se depara com a idolatria do povo, dançando para seus bezerros de ouro. Freud relata as diversas opiniões que leu, destacando inclusive as várias contradições. Informa-nos que nenhuma obra de arte no mundo já fora compreendida de maneira tão diversa.  E faz sua própria análise, começando por destacar a importância de se conhecer a intenção do artista: no caso, construir um conjunto para ser o túmulo de Júlio II; desde já, portanto, defende a necessidade de que haja uma interpretação intelectual da obra de arte, sem que isso, diz ele, diminua em nada o encanto que a obra exerce sobre todos. Cita Hamlet, por exemplo, advertindo que talvez as interpretações geradas tragam polêmicas e novidades, e aumentarão o valor da obra.  É o confesso poder da estátua sobre Freud que o obriga a analisá-la. Vejamos: chama-a de ‘inescrutável’ – ‘quantas vezes subi os íngremes degraus que levam do desgracioso Corso Cavour à solitária piazza em que se ergue a igreja abandonada e tentei suportar o irado desprezo do olhar do herói! Às vezes saí tímida e cuidadosamente da semi-obscuridade do interior como se eu próprio pertencesse à turba sobre a qual seus olhos estão voltados – a turba que não pode prender-se a nenhuma convicção, que não tem nem fé nem paciência, e que se rejubila ao reconquistar seus ilusórios ídolos’. 
Examinando cada detalhe, - não exageramos se dissermos cada centímetro da obra -, e comparando cada um deles com os textos a que tinha acesso, Freud se detém especialmente na mão direita sobre a barba e na posição das tábuas da lei (barba que aparece num sonho dele mesmo, analisado no texto de 1900, no qual se confronta com seus planos para o futuro, com as relações com amigos e familiares e descobre a questão da condensação). E Freud chega à conclusão inversa das leituras que predominavam: Moisés não está prestes a se levantar em sua ira. Pelo contrário: Moisés está representado no instante mesmo em que domina o ímpeto de se levantar e quebrar as tábuas. Estão lá a cólera, o olhar enojado sobre a turba idólatra e o vigoroso controle do gesto impulsivo.  O impacto causado por Moisés poderia estar exatamente na violenta emoção interior que emana através da calma exterior de sua postura. Primeiramente, Freud argumenta que a intenção de construir um túmulo não permite incluir um adorno prestes a se explodir em cólera. Segue-se a lembrança de que Michelangelo, como sempre, se interessa por representar certo tipo de caráter, e que o caráter da figura é acentuado pela ênfase do conflito entre o gênio legislador – Moisés - e o resto da humanidade - o povo pecador-. Criou-se então um tipo de caráter, corporificando uma imensurável força interior capaz de dominar o mundo obstinado. Vemos a ira, o desprezo e o sofrimento imobilizados; eternamente controlados. A cólera e a indignação, que tomaram conta dele naquele instante, são dominadas no momento seguinte, sendo aqui dirigidas contra o próprio corpo. Coisa que Freud encontra na intrigante posição do indicador da mão direita que arrasta a barba para a direita e a comprime contra o peito, enquanto a cabeça se volta para a esquerda. A posição das Tábuas da Lei, também curiosa, corrobora a interpretação: Moisés controlou-se, interrompeu o movimento que iniciava impulsivamente, quase derrubando as tábuas, e se petrificou. Agora, dominando-se, ele poderá compor o quadro de guardião do túmulo. E ficará sentado e quieto, embora emanando sua ira e sofrimento, banhados em desprezo.
Ernest Jones nos lembra que nesta mesma época Freud lutava com seus próprios afetos diante dos movimentos dissidentes do grupo original da psicanálise, em especial com Adler e Jung. É do conhecimento geral o sofrimento e o esforço mental de Freud para lidar com a divergência de Jung; o que, aliás, teria estimulado o desenvolvimento de grandes textos freudianos, tais como ‘Sobre o Narcisismo: uma introdução’, ‘História do Movimento Psicanalítico’, ‘Luto e Melancolia’, entre outros. E mais, o interesse de Freud pela obra de Michelangelo manteve-se e se confirmou em seu último trabalho publicado, ‘Moisés e o Monoteísmo’, de 1939. E assim é que podemos ler mais uma afirmação lapidar de Freud em seu estudo da estátua de Michelangelo: “Dessa maneira, [Michelangelo] acrescentou algo de novo e mais humano à figura de Moisés; de modo que a estrutura gigantesca, com a sua tremenda força física, torna-se apenas uma expressão concreta da mais alta realização mental que é possível a um homem, ou seja, combater com êxito uma paixão interior pelo amor de uma causa a que se devotou”.
Tomo para mim, e transmito a vocês, a pergunta com que Dr. Antônio Franco Ribeiro, encerra seu artigo sobre este mesmo trabalho de Freud: ‘Realmente, se Moisés se levantasse, para onde Freud teria de ir?’

Magda Maria Campos Pinto


Bibliografia:
1.       O Moisés de Michelangelo, Sigmund Freud, Obras Completas, vol. XIII, Imago Editora, Rio de Janeiro, 1976.
2.       Moisés, antes da palavra um acento sinistro, Antônio Franco Ribeiro da Silva, in Culpa – aspectos psicanalíticos, culturais e religiosos. Iluminuras, São Paulo, 1998.

p.s: texto produzido em outubro/2011 para o grupo de estudos do Clube Quase-Ser-Tão.

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