terça-feira, 29 de novembro de 2011

Nas invisíveis asas da poesia...: ao meu amor


 John Keats nasceu em Londres em 31 de outubro de 1795, e morreu em 23 de fevereiro de 1821, em Roma, aos 25 anos, portanto. Pertence à chamada segunda geração romântica, e denominado por muitos ‘o último dos românticos’. Nomeações à parte, o fato é que Keats é um dos maiores nomes da imensa, maravilhosa e diversa poesia inglesa. Marcada por um belíssimo fluxo sensual, a poesia de Keats parece ser a própria fonte do lirismo requintado e puro.
Nasceu pobre, filho de um cavalariço, foi muito cedo para uma escola de cirurgiões, onde estudou por cinco anos. Desde logo já se interessou pela literatura, influenciado pelo estudo de história e idiomas, e fascinado Grécia Antiga. Trabalhou como assistente de cirurgião por algum tempo no Guy’s Hospital, antes de abandonar a medicina pela literatura. Em vida, seu trabalho literário não foi bem recebido pelo público, nem pela crítica, entretanto manteve uma produção copiosa. Freqüentou e fez amizades no, então, efervescente meio literário londrino.
John era o mais velho de cinco irmãos; seu pai faleceu, de uma queda de cavalo, quando tinha apenas oito anos. Após um rápido segundo casamento infeliz sua mãe voltou para a casa da mãe com os cinco filhos; mas veio a falecer quando John tinha 14 anos. A avó deixou economias para os netos, sob administração de certo tutor que não as transferiu para os herdeiros (uma das razões alegadas foi exatamente o interesse de Keats pelas letras em troca da medicina). Ele começou a publicação de seus poemas, entre os primeiros ‘Primeira Leitura do Homero de Chapman’, onde Jorge Luis Borges encontra a mais pura expressão da poesia. Keats passou uma temporada na ilha de Wight, onde escreveu o longo poema Endymion e o soneto No mar. Depois permanece uma temporada em Teignmouth, sudoeste da Inglaterra, cuidando do irmão Tom que já apresentava sinais de tuberculose. Em seguida inicia uma caminhada até a Escócia, com o amigo Charles Brown, durante a qual escreve seus poemas para Burns. De volta, cuida novamente do irmão, que morre em 1818, aos 19 anos. John foi morar com Brown, em Londres (Hampstead, onde hoje existe o museu de Keats); aqui o poeta conheceu a vizinha Fanny Brawne, com quem viveu uma história de amor digna de um grande romântico. Escreveu cartas apaixonadas e poemas incessantemente (suas cartas para os irmãos e amigos mostram impressionante acuidade crítica e filosófica). Começou a apresentar os sinais da tuberculose, que evoluía rapidamente. Em setembro de 1820, os amigos entenderam que ele devia ir para a Itália para evitar o inverno inglês. Em 30 de novembro do mesmo ano, escreve a Brown: ‘Tenho um sentimento permanente de minha verdadeira vida ter passado e de que tenho uma existência póstuma’. Morre em Roma em 23 de fevereiro de 1821, onde está enterrado sob a inscrição que ele mesmo escreveu: ‘Aqui jaz alguém cujo nome estava escrito em água’. Para ele, Shelley escreveu o célebre Adonais. Uma de suas cartas de amor escrita para Fanny Brawne, em 1820, foi vendida por 86.000 libras (110.000 euros), um recorde para um escrito do poeta, segundo a casa londrina Bonhams.  Nela, o poeta se descreve como "um pobre prisioneiro" que não pode "cantar em uma jaula": a tuberculose o impedia de abraçar a jovem. A carta foi adquirida pela prefeitura de Londres para o acervo do museu de Hampstead.
Essa história de amor é contada no filme "Bright star" (aqui, Brilho de uma paixão), de Jane Campion (2009), que retoma o título de um de seus poemas mais conhecidos. É um lindíssimo filme, e ótima iniciação a Keats.
O protagonista fica por conta de Ben Whishaw, um dos melhores jovens atores desta geração (O perfume, I’m not there, A tempestade, entre outros). De fato, Ben já acumula um poderoso currículo (teatro – foi chamado de jovem Laurence Olivier por sua interpretação do Hamlet -, TV e cinema) apesar de sua juventude. E está fantástico nesse filme ótimo que consegue fina sintonia com a poesia de Keats. A fotografia, a direção, a trilha e o elenco conseguem impressionante conjunto, e funcionam como uma orquestra muito bem afinada, tocando bela sinfonia poética. Veja Brilho de uma paixão, e aprenda poesia.

A MORTE
I
Pode a morte ser sono, se a vida não é mais que sonho,
     E se as cenas de êxtase passam qual espectros?
Os prazeres transitórios semelham visões,
     Mas pensamos a morte como a grande dor.
II
Como é estranho o vagar do homem na terra,
      Em sua vida maldita não pode desvencilhar
O rude caminho; nem ousa sozinho entrever
     Seu augúrio futuro que não é senão despertar.

In Nas Invisíveis asas da poesia, John Keats, edição bilíngüe, Iluminuras, SP, 1998.

 

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