terça-feira, 1 de novembro de 2011

SÉRIE DELÍRIOS



1.

DELÍRIO EM ISTAMBUL

A cidade estava silenciosa e vermelha. Digo melhor dizendo que o mundo constituía-se de vários tons em vermelho, e a vida era paz e insinuação. Eu perambulava por ali - não pelas ruas ou avenidas -, perambulava pela cidade como quem voa, pois me via entre telhados, cúpulas e nuvens. E estava com os pés bem plantados no chão. Feliz, leve, não pensava. Nada. Eu contemplava e me deliciava. Não demorou e o encontrei sorrindo, perambulando feliz. Como eu, exatamente como eu, eu o senti. Ele estava feliz e me viu, e me sentiu. Não havia palavras, nos entendemos (aliás, como sempre, ou melhor, nos entendemos muito melhor, pois aqui nem palavras houve). Ele se distinguia: calça jeans velha, ainda azul, em contraste com aqueles vermelhos de pôr de sol eterno da cidade. Estava magro – como sempre fora, mas, mais magro? -, com os negros cabelos bem curtos, a mesma camiseta branca e toda amorosidade que Deus lhe deu. Ao mesmo tempo sentimos o cheiro e a brisa de um mar que não víamos, e que nos ajudava a voar. Caminhávamos serenos pela cidade que tinha a cara do paraíso. Nada dizíamos, de repente eu quis cuidar dele e entramos numa casa bonita. Logo ele estava numa banheira aquecida, coberto por espumas cheirosas e continuava sorrindo em silêncio. Eu estava sentada numa janela enorme, balançava as pernas como se estivesse nas nuvens e brincava com o sol quieto que iluminava tudo. Surgiu uma comida colorida e farta, que comemos devagar. Era o silêncio, e a alegria, pura. Surgiram, sabe-se lá de onde, duas mocinhas felizes, vestidas de flores, querendo passear. Houve um princípio de desconforto, pois eu não conseguia encontrar a roupa certa para passear e então vi o sorriso tranquilo mostrando-me a roupa que eu queria. Saímos e o sol continuava lá. Então, como um comentário banal, uma das mocinhas nos disse que estávamos todos mortos. Sorrimos mais e nosso amor aumentou. Chegamos aos portões da cidade e tudo ficou subitamente azul; mas me sentia segura ao lado dele. Impressionei-me: ele era muito jovem, quase uma criança, porém o olhar era sereno como de um velho sábio e, sem se mover, me aquecia num abraço que era sorriso. Penetramos na bruma azul e logo surgiram crianças louras encaracoladas que agitaram meu coração; as mocinhas disseram ‘são seus filhos’ e logo os vi transformados em pequenos demônios cínicos lutando entre si por pedaços do meu coração. Embora fossem muitas as crianças, meu coração era imenso e elas devoravam avidamente grandes pedaços ensangüentados. Fraquejei e aquele sorriso sereno, pela primeira vez, sussurrou uma palavra: ‘esperaremos’. Fortaleci-me e continuamos a caminhar. O azul se amainou e deixamos para trás as crianças, mas logo surgiram uns adolescentes cegos e gelados, armados com paus, pedras e palavrões que, às cegas, atiravam em nós. As mocinhas repetiram: ‘são seus filhos’. Minha mente se turvou, lembrei-me que era impossível morrer, e meu cérebro anoiteceu. Pela primeira vez, aquele sorriso sereno segurou-me pelas mãos, recolocou meu coração em ritmo de blues e me fez continuar caminhando. O azul se amainou até tudo ficar puro branco. E chegamos à beira do mar. A areia era fina como açúcar e as ondas chegavam beijando nossos pés sem ruído. As duas mocinhas se despediram sorrindo e saíram mar adentro. Ele sentou-se na areia levando-me com ele. Então, pegou o violão e começou a cantar “Chega de saudade”.

Magda Maria Campos Pinto

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