quinta-feira, 3 de novembro de 2011

SÉRIE DELÍRIOS

 2. 

DELÍRIO EM BARCELONA

 Eu sou determinado. Quando decido algo, eu vou buscar, não desisto, ele disse. De ilusão vive o homem, pensei comigo. E lembrei-me também: meu Deus, de novo apaixonada! E revi aqueles olhos de mar, verdes azuis, outras vezes da cor de por do sol sobre mar, sim, assim, molhados, ouro velho brilhante... É verdade, eu me repito. O mesmo medo, mentira, o mesmo pânico. Puro fascínio. Mas agora mudou de idéia: tudo é medíocre, todo mundo é idiota, estamos no inferno, e ele não é do tipo que cai na babaquice de acreditar em céu, em vida depois da morte, essas bobagens. Sim, sim, digo comigo, de ilusões vivemos nós. E sonhei chegando devagarzinho, por trás da cadeira onde ele lia distraído, debruçando-me suavemente sobre seus ombros, sussurrando em seus ouvidos – ninguém mais podia ouvir – sim, eu sei que não há mais ninguém aqui, mas é segredo - ‘diga que me ama’ – e ele virando lentamente o pescoço, aqueles olhos sorrindo, profundos verdes azuis, ‘vem aqui, eu te amo’, e eu com frio na espinha, hein? Frio na espinha, ora, você não sabe o que é frio na espinha? Ah, que pena. E o determinado continuou mudando de idéia, dizendo agora que estava sufocado pelo trabalho, exausto e ao mesmo tempo enjoado daquele trabalho, afinal o chefe era um idiota, como aceitar ter gasto seus melhores anos na faculdade, dias e noites de esforço, rios de dinheiro, pra quê? Pra isso. Morto de tanto trabalhar, exausto de não ser ninguém. Ou melhor, exausto de ser tão ansioso. E eu me sentindo trêmula, cheia de frio na espinha, vendo aquele outro levantar-se, deixar o livro sobre a cadeira, caminhar devagar, envolver-me a cintura em seu abraço, arranhar-me o pescoço com aquela barba linda de dois dias, ‘me dá um cheiro’, ah, se dou, sim, dou um monte de cheiro. Esse abraço bom, e eterno. Quente e macio. Abraço só seu. Ou melhor, só meu. Mas agora, subitamente, ele começou a chorar, dizendo da inigualável estupidez do pai, que tanto lhe obrigava, tanto lhe pedia, que nunca satisfeito se via. E chorou, profundamente, lá nas entranhas. Então me calei. Se possível fosse o acolheria nas entranhas. Se possível.  Então ele se acalmou. Voltei-me para mim. Se a luz dos olhos teus, e a luz dos olhos meus resolvem se encontrar, ai que bom que isso é, meu Deus. Puro pânico. Ah, sim, de ilusões vivemos nós. Que bom isso. O quê? Esse seu olhar. Meu beijo. Ou melhor, o beijo que você dá pra mim.

Magda Maria Campos Pinto 

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