segunda-feira, 7 de novembro de 2011

SÉRIE DELÍRIOS

3.

Delírio em Belo Horizonte

Na verdade, ele não sabe de si. Sente-se apenas, e se sente a pior das pessoas. É o que lhe diz sua esposa, um amor de pessoa, sempre ao seu lado, cuidando de tudo, do filho, daquilo que devia ser, e também daquilo que não devia ser. O certo, o devido, o melhor pra nós. Com certeza um amor de pessoa. Deve tudo a ela. Ele, uma pessoa horrível. Tem certeza. Todos dizem o contrário, dizem que é gente boa, é gente fina, bom amigo, mas ela não pensa assim, ela que sempre soube tudo dele, diz que ele não está sabendo de nada, que sem ela ele não é ninguém. Ela está certa, ele pensa. Eu não presto mesmo, não sei por que, ele repete. Não sabe por quê, acha que não é assim esta peste, mas se  ela diz, deve ser. Ela sempre fez tudo certo. É uma mulher perfeita. Trabalha, trabalha e trabalha. Deixa tudo em ordem. Sem ela não é ninguém, não sou ninguém, repete. Não quero concordar com isso, mas é fato que assim o é. Ou seja, acho que não sou ninguém, diz. Não sei por quê. Neste momento, pensei em minha longa espera, espera daquilo que era verde/azul e me entendia. Pensei nele, pensei no quanto secretamente por tantos anos eu o quis, só pra me dizer que entendia quem era eu, pra revelar que eu bem reconhecia aquele olhar, e mais que isso que  eu era muito grata por ele haver dito tão espontaneamente naquele dia, ou melhor, noite, assim, de passagem, num compromisso de trabalho, aquele elogio surpreendente, rasgado, falando de meu corpo, chamando-o belo, e eu, eu tão envergonhada, tão mal compreendida, tão peixe fora d’água, ele tão franco, tão ele, tão lindo. E eu à espera. Volto àquele. É tão difícil ser quem se é, muito complicado não ser aquilo que  dizem que você é. Mesmo que você não queira ser. Você me entende? Sim, eu entendo. Agora eu quero partir, e ela quer morrer. Me chama de ingrato, de imprestável, de coisa ruim, de egoísta. Me pede em nome dos filhos. Sinto que é chantagem, que sempre foi chantagem, e pior, que eu não vou resistir. Nesta confusão de pessoas, de vontades, de más vontades e de pessoas pelas metades, eu espero por ele, e esqueço a gramática, a psicologia, a pedagogia  e me escondo na filosofia. Sim, me escondo, e escondo bem. É que ninguém é assim tão si mesmo, sem máscara não dá. Mas eu espero, sim. Sim, eu espero, como Jó talvez. Você virá, e me redimirá. E seus olhos verdes azuis me segurarão sobre o abismo do tempo, e me farão sentir que fui a mulher perfeita, e que agora posso descansar. Posso ser somente uma mulher para seus olhos. Apenas uma mulher. Aquela, de mil anos atrás. Direi a ele que meu tempo acabou?

Magda Maria Campos Pinto 

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