terça-feira, 8 de novembro de 2011

SÉRIE DELÍRIOS

4.
Delírio em Amsterdã
 Foi a primeira vez que o despertador tocou e ele resmungou, virou-se e dormiu outra vez. Ou quis dormir, talvez sonhar, lembrou-se que pensava e declamava. O despertador insistia e aquelas notas desagradáveis, daqueles ruídos nada musicais viraram as cores que eram flores que cobriam o chão – ou melhor, as flores cobriam sua cama, ‘tão bom’, ele pensou, e então ele a viu vestida de vermelho e com os cabelos cobertos de flores amarelas vindas diretamente dos girassóis de Van Gogh, e, nesse momento, ele quase a censurou preocupado ‘como pode ter acontecido isso?’ ‘Como estaria agora aquele quadro amado?’ Mas então ela começou a dançar lindamente, era uma cigana dançando flamenco. E logo todos os tecidos do mundo desceram do céu como cortinas leves e coloridas, que também eram chuvas que floresciam mais e mais a terra, e ‘tudo são flores’, ele pensou, afundando-se nos lençóis macios. Ela não dançava flamenco, que coisa! Que engano, era tango... Engraçado isso, pois se lembra de vê-la há muitos anos atrás, e parecia que ela dançava, mas de fato não dançava, era uma mulher séria, seriíssima, tipo professora, com óculos e cabelos presos, preocupada com o destino do mundo, mas ele a vira dançarina, isso não se pode negar... E naquele então havia flores amarelas. Onde? Sim, um dia, também se lembra, falaram sobre os amarelos de Van Gogh. Verdade, impressionante, soube então que ela dançava tango. Impressionante, mil anos depois o mundo se tornou um palco de cortinas que eram chuvas de cores, e as pessoas eram dançarinas; e ele agora era o preocupado porque era hora de ir para o trabalho, mas o trabalho não fazia nenhum sentido, e ela dançava para ele, oh! Mas isso não existe! Coisa de imaginário machista, ‘ela dançando pra mim?’ Céus... Que coisa! Mas agora decidimos voar? Sim, voar até o oriente, talvez a Índia, talvez, nos perder ali, viajar sozinhos, quem sabe encontrar Gandhi, e então nos vestiremos de branco, claro, engraçado isso, agora ela já está do meu lado, e de branco, estamos à caça de Gandhi e eu tentando entender como pode ser, ah, lembrei, o Freud... e o despertador.

Magda Maria Campos Pinto

Nenhum comentário:

Postar um comentário