quinta-feira, 10 de novembro de 2011

SÉRIE DELÍRIOS

5.

DELÍRIO EM VALPARAÍSO

De súbito a janela e depois dela o mais lindo por do sol do mundo. E sobre o por do sol uma estrela solitária. Venus. Lembrei-me: a tarde caindo, o céu ainda azul, entre morros verdes e um vento morno. Olha lá uma estrela... Vespertina, disse ela. Olhei sonhando. E tive a mais linda certeza de que a vida era imensa, e ao mesmo tempo, de que minha tristeza era maior. Sim, muito maior. Naquele exato instante, em que a tarde caía e eu via a solitária estrela vespertina em céu azul, vi também tudo que eu não via. Nem me sabia. Que eu não era. Que no máximo, com muita sorte, um dia seria, quem sabe?, um súbito e inesperado achado fugaz, se alguém um dia olhasse naquele exato súbito instante para o céu. Olhei para ela querendo encontrar meu equívoco. Sorridente ela discorria sobre a histeria da vizinha, aos berros, com os filhos, tão tantos, tão sujos, tão isso e tão aquilo. Ela esquecera a estrela. Não havia equívoco. Eu estava na terra. Voltei aos céus. E agora eram muitas. Já, agora, um instante apenas passado, e tantas estrelas no céu. Perdida, pensei de mim. E toda a noite passei entre as mil incontáveis estrelas em que me perdi. O sol começou a voltar, devagarzinho... E as estrelas indo... foram. Uma se demorou; eu a revi. Era a mesma. Reencontrei-me. Volto mil anos depois à janela, ao por do sol, à estrela vespertina... Ainda lá! O sol se foi, veio a noite, a cidade se acendeu. E, mil anos depois, eis o meu equívoco: a estrela está ali. E Neruda aqui comigo ‘puedo escribir los versos más tristes esta noche... escribir, por ejemplo, la noche está estrellada y tiritan azules los astros a lo lejos’.

Magda Maria Campos Pinto 


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