sábado, 12 de novembro de 2011

SÉRIE DELÍRIOS

6.
 Delírio em Abu Dhabi

Tentei dormir, mas Abu Dhabi brilhava entre meus cílios e por mais esforço que eu fizesse para fechar, de vez, meus olhos, mais e mais luzes em consistente paz, me envolviam. Corri para o meu passado e revi passo a passo cada momento, cada esperança, cada pedido. E conclui como Drummond: tenho razão de sentir saudades. Revisitei todos os momentos em que me buscava tal como me queria, quando fazia tal como me queriam, quando esperava como me mandavam. Tenho razões de sentir saudades. Em nenhum daqueles momentos te encontrei. Bem te vi: um dia você foi amoroso e sereno até o dia da armadilha, depois viajou para a França para se tornar rico e famoso. Não me encontrou quando voltou e logo te vi, em minha desilusão, indiferente e viril, dono das mulheres do mundo. E em seguida, eram todas as mulheres do mundo, e você tinha olhos azuis; na semana seguinte, olhos negros e queria me beijar sem saber o que fazia. Eu, de verdade, estava dormindo, ou fugindo. Mas você chegou sorrindo e cheio de carinho e me acordou. Um presente com sorrisos por dia. Eu acreditei até o momento em que você me contou do medo que sentia, e fugiu. Como já estava acordada, decidi acreditar quando voltou de olhos castanhos e dizendo me amar. Até o dia em que todas as mulheres do mundo voltaram e eu era uma delas, embora soubesse que não era. Fiz enorme força e me disse: não sou todas as mulheres do mundo, e saí. Você estava ali na esquina com abraço amoroso e juras eternas. Acreditei e me deixei aquecer, até a hora que você se entristeceu de vez porque sentia falta da mamãe. E então eu estava exausta, com vontade de dormir. Ou melhor, decidi que voltaria a dormir. E com toda certeza, tenho razões de sentir saudade. O problema é que Abu Dhabi brilha, e brilha, e me deixa completamente insone.

Magda Maria Campos Pinto


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