sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

CONTOS DA ESTRADA



SOCORRO
O carro da empresa era novo e confortável; um destes modelos ‘Off Road’ dirigido por motorista experiente que conhecia muito bem a estrada. Esta, um simples caminho de terra aberto por entre árvores magras e compridas, plantadas numa simetria perfeita, formando enorme campo de reflorestamento. Nós duas, vindas da cidade para cumprir o internato rural que completaria nossa formação médica, sentadas no banco macio, envolvidas pelo perfume suave que a brisa trazia das árvores, trêmulas de excitação com o trabalho novo que nos era aguardava, sem ter a menor idéia do que esperar, orgulhosas pelo tratamento recebido na sede da companhia – ‘chegaram as doutoras da capital’-, permanecíamos mudas e imóveis. Deixávamos nos levar como quem sabe do perigo e não tem escolha. O motorista, jovem bonito e forte, falava sem parar sobre as belezas do lugar, do progresso que a companhia havia trazido para a região e da quantidade de trabalho que nos esperava. Dizia que famílias inteiras haviam vindo de longe em busca do trabalho, já havia mais de cinco mil pessoas trabalhando e ainda sobrava trabalho. O ritmo era forte e todos estavam felizes com a nossa chegada, pois muita gente estava doente e machucada e, como o lugar ficava muito afastado, era quase impossível conseguir recursos médicos. Agora tudo ficaria mais fácil. Não compreendi a parte ‘muita gente machucada’, mas permaneci calada; as emoções eram muitas e confusas, eu não conseguia articular palavra. E neste momento, senti que eu era puro medo. Ele continuava falando, com voz agradável e extrema gentileza; perguntava se precisávamos de algo, se gostaríamos de descansar um pouco e tal. Não queríamos nada, apenas chegar ao nosso destino, e em verdade, toda aquela gentileza também nos assustava. Andamos por cerca de duas horas árvores adentro. Ele dizia sempre ‘mata adentro’, mas eu não conseguia entender isso, meu sentimento falava muito mais de ‘deserto’ adentro.  Difícil explicar. Tudo era eucalipto: o mesmo verde, a mesma árvore repetida milhares de vezes a espaços bem medidos. Não vimos animal, nem um pássaro e não dissemos nenhuma palavra até que vimos fumaça branca subindo como canudos bem feitos acima das árvores, em direção às nuvens. Acompanhei a fumaça e vi um céu fosco, azul cinzento. Chegamos, e fomos diretamente ao que chamavam casa central: um cômodo de tijolos aparentes e uma grande janela azul. Duas mesas de metal pintado de branco, duas cadeiras pra cada mesa, e uma pia cuja torneira era enferrujada e torta. Mas não ocupavam o espaço, sobrava uma atmosfera pesada e vazia.  Luís, o motorista, apresentou-nos a um homem forte e bem vestido, a quem chamou ‘senhor gerente geral’, que, por sua vez nos convidou para conhecer o acampamento. A princípio não vimos ninguém e caminhamos entre as árvores por trilhas mais e mais estreitas. Depois de algum tempo nos deparamos com dezenas barracas de lona marrom, algumas fechadas. Então, o senhor gerente geral gritou alguns nomes que não consigo recordar; lembro-me que observei minha colega que se mantinha aparentemente calma e com a palma da mão tampando a boca. Comecei a me agitar. Surgiram pessoas pálidas, magras, homens, mulheres, crianças... Eu vi apenas olhos. O senhor gerente geral disse: ‘chegaram as doutoras, agora vocês vão ser tratados, podem ir para a casa central’. Para parecer forte, balbuciei uma pergunta sobre a fumaça que, embora ainda não conseguisse ver de onde saía, sentia que estava perto, e sentia um cheiro que me doía dentro de calor abafado. Ele respondeu ‘são os fornos, amanhã você pode conhecer’. Voltamos pelo mesmo caminho, agora seguidos por pessoas que para mim eram somente olhos. Minha colega mantinha-se serena, eu pensava, sempre com a mão sobre a boca, e, agora posso lembrar-me que, durante todo o tempo que estivemos naquele lugar, ela não disse quase nada; apenas um bom dia, boa noite, tudo bem. Começamos a trabalhar: pessoas famintas. Feridas abertas. Cortes profundos. Barrigas enormes, vermes, gravidezes, abortos, mãos amputadas, fome, fome e fome. Não tínhamos nenhum recurso; os aparelhos que usávamos eram nossos e de nada nos valia. Podíamos ouvir corações, contar os pulsos e as respirações... Mas nada mais: nem analgésicos nem antibióticos; nem vitaminas, nem bandagens; um fio grosso e preto, uma agulha única que servia para suturar tudo: pé, mão, braço, rosto... E ninguém dizia nada. Entravam, sentavam-se, olhavam eternamente para mim, diziam ‘não sei’ às minhas perguntas. Ou simplesmente ‘me machuquei’. No final do dia eu estava mais machucada do que podia imaginar que um dia me sentiria, era só dor e a sensação era de que nada fizera. Veio a noite, o carro, o motorista e a viagem de volta à sede da empresa. Mais silêncio, agora minha colega tampava a boca com as duas mãos. Chegamos e havia uma mesa posta com carnes, verduras, frutas e doces. Pensei num jantar romano, disse que estava sem fome, tomei um banho quente delicioso, usei sabonete branco de minha marca preferida e fui dormir sentindo-me suja e cheirando mal. Não dormi, mas sonhei com a morte a noite inteira. Dia seguinte tudo recomeçou igual às seis da manhã. Não tive vontade de tomar café e não sei dizer por que peguei minha máquina fotográfica. A viagem deserto adentro foi a mesma. As pessoas que chegaram à casa de atendimento foram as mesmas. Às 13 horas interrompi aquela via sacra e pedi pra caminhar um pouco; disse que gostaria de conhecer os tais fornos. O senhor gerente geral, gentilíssimo, disse que me acompanharia. Logo à saída da casa percebi uma enorme fila de maltrapilhos e quis saber de que se tratava. Tranquilamente ele me respondeu que era o armazém da empresa, e que aquelas pessoas estavam comprando o que queriam; perguntei se tinham dinheiro, ele disse que elas pagavam no final do mês com o salário que recebiam. A companhia permitia, era uma boa empresa. Continuamos andando e logo depois de uma pequena colina chegamos a uma clareira imensa. Ali havia um trabalho insano, um movimento ao mesmo tempo confuso e ordenado; um ruído abafado e continuado de serra trabalhando, por vezes um estrondo de uma árvore derrubada, gritos de gerentes, gemidos e choros. Senti-me diante de um formigueiro, e fiquei paralisada, até que o senhor gerente geral disse: ‘não é formidável? Conseguimos a maior produção dos últimos anos... Vamos aos fornos?’ Eu o acompanhei como robô e caminhamos por mais uns vinte minutos. E então logo surgiram centenas de casinhas de barro, muito parecidas com os fornos de assar biscoitos que a minha avó usava, com a diferença que a boca destes de aqui estavam abertas para o céu... Uma boca escancarada da qual saiam labaredas vermelhas e escaldantes. Outro formigueiro, mas no inferno, eu pensei. Homens, mulheres e crianças descarregavam caminhões cheios de madeira, cortavam madeira, carregavam carrinhos, subiam escadas até àquelas bocas escancaradas, enchiam os fornos, fechavam aquelas bocas de dragão, se queimavam, caiam pelo caminho, eram arrastados pelos senhores gerentes, e a ensandecida faina continuava. Balbuciei dentro de minha perplexidade e covardia um ‘por que as crianças e as mulheres também, e ainda as grávidas’? E o senhor gerente geral disse que eles queriam assim, assim conseguiam ganhar mais, pois a companhia pagava por produção familiar e então... Eu me senti nauseada e disse que gostaria de caminhar mais. Instintivamente peguei minha câmara e comecei a tirar umas fotos e o gerente, delicadamente, dizendo ‘não podemos permitir que a senhora fotografe, é direito deles, eles têm direito de imagem, a companhia os protege, a senhora entende’, e me encarando bem nos olhos disse que guardaria  minha máquina até o fim do meu estágio. Estava no contrato assinado, ‘sem registros de imagens’, mas como fora mera distração minha, ele compreendia, e aquilo ficava entre nós dois, acrescentou. Eu fiquei mais muda, mais triste, mais doente... Agradeci, e fizemos o caminho de volta. A tarde foi como a tarde de ontem, mal vi minha colega que se mantinha pregada na cadeira, recebendo uma gente depois da outra, sem nada dizer, apenas fazendo, fazendo... O
 quê?

 
 (óleo sobre tela - Sabrina HemmI)

Chegou a noite, não posso dizer o que deu em mim mas pedi pra ficar, disse que gostaria de conhecer a vida no acampamento à noite, que eu estava ali aprendendo... Foi complicado, o olhar de minha colega me atravessou como uma lança, mas nada disse; o gerente geral disse que não estava no contrato, que garantia minha segurança, que não... Eu respondi que não estava no contrato que eu não podia ficar, que eu só queria aprender, que eu ficava no posto sem problema, que assinava um documento assumindo a responsabilidade, e como várias pessoas já se aproximavam ouvindo a conversa, quase discussão, na verdade um duelo sem declaração de armas,  a presença daquelas pessoas fez o senhor gerente se calar, se render e sair resmungando.... O carro partiu e fiquei ali parada olhando aquelas pessoas que saíam no posto me olharem, e se dispersarem aos poucos. Sentei-me na porta, encolhi as pernas, as abracei e fiquei imóvel por tempos que não sei contar. Depois alguns homens entravam e saíam do armazém... Depois outros, e não saíam. Depois muitos. A estas alturas aquele caminho de terra batida que chamavam rua principal estava repleto de pessoas; homens, mulheres, crianças... A maioria embriagada, aos gritos, aos choros, às gargalhadas. Começaram brincadeiras, quedas de braço, boxe. Apareceu um rádio, um forró, um baile. Ninguém se aproximava de mim, e eu não sabia o que sentir sobre isso. Gratidão ou autopiedade? Sentia-me apenas nada. E diante de mim, continuava a festa. Percebi que entre todos os trapos bailantes destacava-se um homem maior e mais forte. E com certeza mais bêbado; ele vencia as quedas de braço, dançava com todas as mulheres e dava ordens a meio mundo. Num certo momento ele espancou um jovem até que ele ficasse desmaiado e largado lá no chão; ninguém se moveu. Depois foi a vez de uma jovem adolescente, quase uma criança, que sabe Deus por quê, levou uma bofetada que a derrubou; ninguém se moveu; ela se levantou sozinha, saiu cabisbaixa e vagarosa, desaparecendo entre as árvores em direção às barracas.  Surgiu uma mulher magrinha, quase velha, descalça, com ralos cabelos negros amarradas num rabo de cavalo, com vestido de chita onde cabiam duas da mulher... E ela disse alguma coisa para aquele homem, ‘vamos, é tarde, amanhã’ e recebeu um safanão que a jogou pra trás. Entretanto ela não se arredou, consertou o corpo e ficou ali parada, como quem está vigiando. Continuaram as danças e as bebedeiras. E apareceu uma criança; tinha talvez seus dez anos, difícil dizer, tanta magreza, tanta palidez, mas sua destreza para dançar, para pular daqui pra lá, pra saltar troncos e pessoas me impressionaram. Foi então que o homem gritou: ‘já pra cama, José, seu burro, suma daqui’. E José respondeu: ‘Vou ficar’. E tudo parou. Tudo foi silêncio e imobilidade. Ouvi: ‘Socorro, leva o filho da puta pra cama antes que... ’. José respondeu: ‘Vou ficar’. Num instante vi aquele monstro gigante agarrar o filho pelo pescoço, balançar no ar, e no mesmo instante vi uma mulher magrinha, de imenso vestido de chita azul pular nas costas do gigante, agarrá-lo pelo pescoço, morder-lhe as orelhas tirando sangue, arrancar-lhe os cabelos, furar-lhe os olhos, gritando a plenos pulmões, que não tinha, ‘larga meu filho, não toca no meu filho, eu vou te matar".
 
 (óleo sobre tela - Sabrina Hemmi)

 Tudo era silêncio em torno dos gemidos do gigante, estirado no chão, com uma das mãos segurando a orelha que sangrava aos borbotões e a outra protegendo um olho que não se via. Ninguém se moveu e continuavam os gemidos quase inaudíveis: ‘socorro, socorro... ’. Até que alguém balbuciou: a doutora está ali. Dentro de mim, uma explosão: socorro!

Magda Maria Campos Pinto

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