domingo, 4 de dezembro de 2011

Reflexões iniciais....


‘The Taming of the Shrew’, 1596, aqui ‘A Megera Domada’, uma das primeiras comédias de Shakespeare, é o tema de agora. Tem a perfeita fórmula shakespeariana que, na comédia, foca quase sempre o casamento, as farsas do amor e a interminável guerra dos sexos. Mais uma vez, o trabalho é uma compilação e/ou registro de pequenas histórias que circulavam na época. A comédia de Shakespeare abusa da caricatura, da ironia, da crítica social. A Megera esmera-se nesses itens. Catarina é a bela, rica e fora da ordem. Petruchio é um belo, rico e fora da ordem. Encontram-se, digladiam-se e estabelecem nova ordem. Tudo muito simples, como acontece com Shakespeare, que nos captura para todo o sempre. Acontece que o dramaturgo inglês domina os fios da trama que quer tecer; as trapaças e as mudanças súbitas de rumo, simultâneas a atitudes previsíveis, permeiam não apenas a linha mestra da peça, como as teias colaterais e envolvem o espectador sensibilizando-o para o desfecho, sempre radical, de suas obras. A obra dentro da obra, noutras palavras, atores que encenam uma peça dentro daquela que estão atuando, e o final inusitado, digamos, ao avesso, estão afiados em A Megera Domada. Um final, dissemos, ao avesso, nos deixa implicados: o autor está afirmando isso mesmo, ou está gozando com a nossa cara? Em tempo: ‘finge-se que é um sonho’. Quero dizer que Shakespeare é Shakespeare também porque é o mestre da ambigüidade. E assim caminham Shakespeare, a literatura, e a humanidade. Amém. Harold Bloom, o polêmico crítico americano, mas de modo algum descartável, coloca Shakespeare, no centro do cânone literário ocidental, e se justifica dizendo que o dramaturgo inglês vence os demais quando evidencia uma psicologia de mutabilidade, quando origina a descrição da autotransformação com base no ‘entreouvir-se’. A partir daqui, teria acrescentando ‘à função da literatura, a lição mais dominante, se bem que mais melancólica, da poesia: como falar a nós mesmos’. Ítalo Calvino, em Seis Propostas para o Próximo Milênio, dá à literatura a condição de produtora de anticorpos capaz de nos salvar da peste da linguagem. Pois bem, e todos já sabem, é neste furacão que nos situamos, e que gostamos de ficar. E de provocar, em especial a nós mesmos. ‘A Megera Domada’ está aqui, afinal. Não apenas porque gerou e gera: filmes, novelas, telas, canções, e mais filmes, novelas, canções... e... A Megera está aqui porque ‘entreouvimos’, por profissão.   A guerra dos sexos é o foco que queremos chamar atenção, neste hoje. Para a absoluta maioria (o que é isso mesmo?) uma guerra obsoleta, mais que vencida, terrenos todos conquistados, novo reinado definido. Pois bem. Sei. Não estou vendo nada disso, e para não me chamar de obsoleta e vencida a mim mesma, exponho a questão. Puro egoísmo. Pois é. Para amenizar com brilho, preparar uma incursão em Shakespeare e voltarmos, humildemente, à questão de ‘gêneros’,  sugiro o filme A MEGERA DOMADA, com show de Elizabeth Taylor e Richard Burton. Pura delícia. Ótimo para começar a semana de trabalho... Se possível, de paz e amor.  

 
E o diálogo final, só pra ilustrar (como disse, a provocação é pra mim...) :

Catarina: - Que vergonha! Que vergonha! Desarma essa fronte ameaçadora e feroz e não lancem teus olhos esses olhares desdenhosos, como se quisesses atravesar teu senhor, teu rei e teu governante. Isso empana tua formosura, como as geadas cortam as campinas; destrói tua reputação, como os furacões agitam os lindos botões e não é prudente nem amável. Uma mulher irritada é como uma fonte agitada, turva, desagradável e sem encanto. E enquanto assim permanecer ninguém haverá, por mais sedente ou alterado que esteja, que se digne acercar dela seus lábios ou beber uma só gota. Teu marido é teu senhor, tua vida, teu guardião, tua cabeça, teu soberano; é quem cuida de ti, quem se ocupa de teu bem-estar. É ele quem submete seu corpo aos trabalhos rudes, tanto na terra como no mar. De noite, vela no meio da tempestade; de dia, no meio do frio, enquanto tu dormes calidamente em casa, segura e salva. Só imporá de ti o tributo do amor, da doce e fiel obediência: paga bem pequena para tão grande dívida. A mulher tem as mesmas obrigações em relação ao marido do que um súdito em relação ao príncipe. E mostrando-se indomável, mal-humorada, intratável, desaforada e desobediente à suas legítimas ordens, não passa de uma rebelde, uma vil litigante, culpada do delito de traição para com seu senhor bem-amado. Causa-me vergonha ver as mulheres declararem, ingênuas, a guerra, quando deveriam implorar a paz; pretenderem o mando, a supremacia e o domínio estando destinadas a servir, amar e obedecer. Por que nossos corpos são tão delicados, frágeis e tenros, impróprios para as fadigas e agitações do mundo, a não ser porque a qualidade gentil de nosso espírito, de nossos corações, deve achar-se em harmonia com nosso exterior? Vamos, vamos, vermes impotentes e indóceis! Eu também tive um gênio tão difícil quanto os vossos, um coração tão altaneiro e, também, maiores motivos para opor uma palavra a outra palavra e mau humor por mau humor. Mas, agora compreendo que nossa lanças não passam de frágeis caniços; nossa força, fraqueza, uma enorme fraqueza que , aparentando que somos os mais, provamos que somos os menos. Não vos mostreis, pois, orgulhosas, que de nada serviria e pode vossas mãos aos pés de vossos esposos em sinal de obediência. Se o meu mandar, minha mão está pronta, se isso causar-lhe prazer.”

 
p.s:  Rruumm. Então, se fizermos o dever de casa direitinho, da próxima vez, poderemos estudar Hegel, e a dialética do senhor e o escravo, combinado?

 

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