sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

A VIDA É UM SONHO

 Pedro Calderón de la Barca é um poeta e dramaturgo espanhol do século XVII. É autor de vasta obra; de fato, junto com Lope de Veja, seu modelo, compõe o núcleo genial do teatro barroco espanhol. Aqui, destacamos A VIDA É UM SONHO, contada entre seus dramas filosóficos, onde encontramos alguns dos mais conhecidos monólogos do teatro. Neste drama, o príncipe Segismundo é acorrentado por seus pais, desde a infância, numa prisão escura, por causa de uma profecia que dizia que, quando adulto, ele traria desgraças ao reino. Quando adulto, o rei se arrepende, decide mandar sedá-lo e retirá-lo da prisão. Ao acordar, dizem-lhe que ele é príncipe, e que tudo o que havia acontecido antes teria sido um sonho. Agora príncipe, Segismundo realiza a profecia, começa a cometer os desatinos e então o rei refaz o desfeito: seda-o novamente e o reenvia para a prisão escura. Ao acordar, Segismundo, preso entre sonho e realidade, lamenta-se noutro belíssimo monólogo.  

 Essa obra foi, naturalmente, replicada em diversas outras formas, ao longo dos séculos. (por exemplo, a canção do Chico, que já citamos). No filme brasileiro TEMPOS DE PAZ (dirigido por Daniel Filho, em 2009, baseado na peça Diretrizes em Tempos de paz, de Bosco Brasil, Dan Stulbach interpreta um famoso monólogo de Segismundo – vale conferir o filme).

 

 
"Ai de mim, ai, pobre de mim!
Aqui estou, ó Deus, para entender que crime cometi contra Vós.
Mas, se nasci, eu já entendo o crime que cometi.
Aí está motivo suficiente para Vossa justiça, Vosso rigor, porque o crime maior do homem é ter nascido.
Para apurar meus cuidados, só queria saber que outros crimes cometi contra Vós além do crime de nascer. Não nasceram outros também?
Pois, se os outros nasceram, que privilégios tiveram que eu jamais gozei?
Nasce uma ave e, embelezada por seus ricos enfeites, não passa de flor de plumas, ramalhete alado quando veloz cortando salões aéreos, recusa piedade ao ninho que abandona em paz.
E eu, tendo mais instinto, tenho menos liberdade?
Nasce uma fera e, com a pele respingada de belas manchas, que lembram estrelas.
Logo, atrevida e feroz, a necessidade humana lhe ensina a crueldade, monstro de seu labirinto.
E eu, tendo mais alma, tenho menos liberdade?
Nasce um peixe, aborto de ovas e Iodo e, feito um barco de escamas sobre as ondas, ele gira, gira por toda parte, exibindo a imensa habilidade que lhe dá um coração frio.
E eu, tendo mais escolha, tenho menos liberdade?
Nasce um riacho, serpente prateada, que dentre flores surge de repente e de repente, entre flores se esconde onde músico celebra a piedade das flores que lhe dão um campo aberto à sua fuga.
E eu, tendo mais vida, tenho menos liberdade?
Assim, assim chegando a esta paixão, um vulcão qual o Etna quisera arrancar do peito, pedaços do coração.
Que lei, justiça ou razão pôde recusar aos homens privilégio tão suave, exceção tão única que Deus deu a um cristal, a um peixe, a uma fera e a uma ave?"


  (fragmento)
1
É certo; então reprimamos
esta fera condição,
esta fúria, esta ambição,
pois pode ser que sonhemos;
e o faremos, pois estamos
em mundo tão singular
que o viver é só sonhar
e a vida ao fim nos imponha
que o homem que vive, sonha
o que é, até despertar.
2
- Sonha o rei que é rei, e segue
com esse engano mandando,
resolvendo e governando.
E os aplausos que recebe,
Vazios, no vento escreve;
e em cinzas a sua sorte
a morte talha de um corte.
E há quem queira reinar
vendo que há de despertar
no negro sonho da morte?
3
- Sonha o rico sua riqueza
que trabalhos lhe oferece;
sonha o pobre que padece
sua miséria e pobreza;
sonha o que o triunfo preza,
sonha o que luta e pretende,
sonha o que agrava e ofende
e no mundo, em conclusão,
todos sonham o que são,
no entanto ninguém entende.
4
- Eu sonho que estou aqui
de correntes carregado
e sonhei que em outro estado
mais lisonjeiro me vi.
Que é a vida? Um frenesi.
Que é a vida? Uma ilusão,
uma sombra, uma ficção;
o maior bem é tristonho,
porque toda a vida é sonho
e os sonhos, sonhos são.

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