domingo, 22 de janeiro de 2012

A GERAÇÃO PERDIDA?



‘Geração Perdida’ é uma expressão que apareceu no livro O sol também se levanta de Ernest Hemingway e logo passou a denominar um grupo de intelectuais que tinha como centro de gravidade a fantástica Gertrude Stein, americana nascida em Pittsburg em 1874, que viveu em Paris, dedicada às artes e em especial à literatura. Visionária, arrojada, cercou-se de um grupo espetacular de quem podemos dizer que foram os gênios da contemporaneidade artística. Entre eles estavam: Matisse, Hemingway, Joyce, Picasso, Ezra Pound, Fitzgerald, Apollinaire, George Braque, Salvador Dali, Buñel, T. S. Elliot, Cole Porter e muitos outros.  Aqui, as palavras começaram a voar, as cores gritaram, as formas se deformaram e se reformaram, e a música era o jazz. O livro de Gertrude Stein, ‘Autobiografia de Alice B. Toklas’ (sua namorada por cerca de três décadas) trata, de maneira original e deliciosa exatamente desse encontro de ‘gênios’ em Paris, vindos de todo canto da terra, nos começos do século XX. Gertrude Stein é um verdadeiro ponto de virada na consciência de ser; ela foi a primeira a compreender, assimilar e a lutar por causas só vislumbradas ao longo de século XX, e ainda hoje, ignoradas por grande maioria. Inquieta, inteligente e ousada, quis interferir em todos os acontecimentos do mundo enquanto esteve nele. Sua atividade durante a primeira guerra mundial (junto ao Fundo de proteção aos americanos que viviam na Europa, também é lendária). Genial e geniosa, amava e lutava com a mesma intensidade. De qualquer maneira, G. Stein quer dizer vanguarda. Pois bem, a expressão geração perdida adquiriu, com o tempo (ou a bem dizer, é provável, desde que foi cunhada) um interessantíssimo paradoxo. A princípio, se refere a essa gente que nasceu na virada do século XIX/XX com promessas de progresso e vitória da razão, e viveu longe da promessa, na pobreza material, nas guerras, na dita grande depressão. Mas de ‘perdida’ essa geração nada teve! E nada tem a ver com as gerações que se seguiram, a saber, as gerações da segunda metade do século XX, que não se recuperaram da perplexidade advinda das explosões em série que se seguiram às explosões atômicas dos anos 40... explodindo dimensões diversas nos cinqüenta, sessenta, setenta e... explosões que ainda não se extinguiram... Quem sabe tudo e bem de tudo isso é Woody Allen. E que, bem, continuaremos...





http://www.youtube.com/watch?v=ycrlT6iOrBk&feature=related


Augusto de Campos:
 “De todos os modernistas radicais, Gertrude Stein permanece sendo a personagem mais indigesta, a menos assimilada”. “Estava interessada, também, no que chamava de “presente contínuo”, algo que perseguia desde “Melanchta” e que a levaria a privilegiar os verbos, especialmente em forma gerundiais, e as reiterações – artifícios linguísticos que sugeririam uma dilatação ou prorrogação indefinida do momento, paralisando a ação em várias inflexões do mesmo ato”.  “Aqui as mais banais descrições caracterológicas são repisadas com mínimas variações em redundâncias recorrentes que se acumulam ao longo de quase 1000 páginas na platitude sem relevos de uma planície aparentemente sem fim”.

Se eu lhe contasse: um retrato acabado de Picasso
 (tradução de Augusto de Campos)

Se eu lhe contasse ele gostaria. Ele gostaria se eu lhe contasse.
Ele gostaria se Napoleão se Napoleão gostasse gostaria ele gostaria.
Se Napoleão se eu lhe contasse se eu lhe contasse se Napoleão. Gostaria se eu lhe contasse se eu lhe contasse se Napoleão. Gostaria se Napoleão se Napoleão se eu lhe contasse. Se eu lhe contasse se Napoleão se Napoleão se eu lhe contasse. Se eu lhe contasse ele gostaria ele gostaria se eu lhe contasse.
Já.
Não já.
E já.
Já.
Exatamente como como reis.
Tão totalmente tanto.
Exatidão como reis.
Para te suplicar tanto quanto.
Exatamente ou como reis.
Fechaduras fecham e abrem e assim rainhas. Fechaduras fecham e fechaduras e assim fechaduras fecham e fechaduras e assim e assim fechaduras e assim fechaduras fecham e assim fechaduras fecham e fechaduras e assim. E assim fechaduras fecham e assim e assado.
Exata semelhança e exata semelhança e exata semelhança como exata como uma semelhança, exatamente como assemelhar-se, exatamente assemelhar-se, exatamente em semelhança exatamente uma semelhança, exatamente a semelhança. Pois é assim a ação. Porque.
Repita prontamente afinal, repita prontamente afinal, repita prontamente afinal.
Pulse forte e ouça, repita prontamente afinal.
Juízo o juiz.
Como uma semelhança a ele.
Quem vem primeiro. Napoleão primeiro.
Quem vem também vindo vindo também, quem vem lá, quem vier virá, quem toma lá dá cá, cá e como lá tal qual tal ou tal qual.
Agora para dar data para dar data. Agora e agora e data e a data.
Quem veio primeiro Napoleão de primeiro. Quem veio primeiro. Napoleão primeiro. Quem veio primeiro, Napoleão primeiro.
Presentemente.
Exatamente eles vão bem.
Primeiro exatamente.
Exatamente eles vão bem também.
Primeiro exatamente.
E primeiro exatamente.
Exatamente eles vão bem.
E primeiro exatamente e exatamente.
E eles vão bem.
E primeiro exatamente e primeiro exatamente e eles vão bem.
O primeiro exatamente.
E eles vão bem.
O primeiro exatamente.
De primeiro exatamente.
Primeiro como exatamente.
De primeiro como exatamente.
Presentemente.
Como presentemente.
Como como presentemente.
Se se se se e se e se e e se e se e se e e como e como se e como se e se. Se é e como se é, e como se é e se é, se é e como se e se e como se é e se e se e e se e se.
Cachos roubam anéis cachos fiam, fiéis.
Como presentemente.
Como exatidão.
Como trens.
Tomo trens.
Tomo trens.
Como trens.
Como trens.
Presentemente.
Proporções.
Presentemente.
Como proporções como presentemente.
Pais e pois.
Era rei ou rês.
Pois e vez.
Uma vez uma vez uma vez era uma vez o que era uma vez uma vez uma vez era uma vez vez uma vez.
Vez e em vez.
E assim se fez.
Um.
Eu aterro.
Dois.
Aterro.
Três.
A terra.
Três.
A terra.
Três.
A terra.
Dois.
Aterro.
Um.
Eu aterro.
Dois.
Eu te erro.
Como um tão.
Eles não vão.
Uma nota.
Eles não notam.
Uma bota.
Eles não anotam.
Eles dotam.
Eles não dão.
Eles como denotam.
Milagres dão-se.
Dão-se bem.
Dão-se muito bem.
Um bem.
Tão bem.
Como ou como presentemente.
Vou recitar o que a história ensina. A história ensina. (Gertrude Stein)



http://www.youtube.com/watch?v=FJEIAGULmPQ&feature=fvsr  

 

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