domingo, 15 de janeiro de 2012

Notas sobre o que está por vir


2.

O discurso da mulher. Não, pelo menos duas mulheres. Sempre. Nunca há uma mulher. Pelo menos duas, sempre. De repente me ocorrem muitas mulheres. Inúmeras mulheres, todas as mulheres. Mas... Devagar! Primeiro, duas. Todas as mulheres do mundo, e depois eu. E daqui, ou seja, do meu eu – uma quimera -, outras tantas mulheres. Mas... Devagar. Nada me soa tão absurdamente difícil do que falar de mulheres, e da mulher que sou eu. Ou fui. Ou serei. Há cerca de cinco dramas. Não quero narrar nenhum. Sempre gostei de afirmar a inexistência da mulher em geral, pois, na maioria das circunstâncias, há que se desconsiderar a categoria gênero. Mera ilusão. Ou necessária ilusão. Existem gêneros, e um modo universal de definir o feminino. Trata-se, mui rigorosamente, da idéia fundadora da noção de fecundidade. Não se concebe nenhum sistema inteligível de concepção do todo, e de tudo que se relacione à idéia de continuidade que possa prescindir do feminino. Ou reprodução; ou eternidade, isto é, de tempo. Eis a mulher. E não estou muito interessada nisso. Idéias. Mais não posso ver. Mas posso supor.

Magda Maria Campos Pinto

(W. Eugene Smith - The Walk to Paradise Garden, 1946)

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