segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Notas sobre o que está por vir

3.

Quando abri os olhos, estava feliz. E tornei-me imediatamente triste quando abri os olhos. Não quero cair em tentação e contar todas as histórias desagradáveis que aconteceram comigo. Vou dizer apenas que incontáveis histórias se passaram comigo. Mas definitivamente não quero tratar disso, nem mesmo da morte quero tratar agora, da morte, uma matéria nova (relativamente) que quero me impor. Há muito a dizer, mas me calarei. Quero me focar no impossível de se dizer: eu, e mais ainda, a mulher. Nunca houve uma dúvida sequer, nem um dia, nem uma vez, quanto ao meu sucesso. Argh. É uma nojenta verdade. Qualquer coisa que se resolvesse fazer, far-se-ia de maneira brilhante. Qualquer coisa, é certo, tão certo quanto o fato de ninguém entender-me. Hoje, não quero mais nada. Ou melhor, eu quis apenas sossego. Muito antes de conhecer o Tim Maia. De fato, o dèjavu é um problema feminino. Não estou dizendo com isso – pelo amor de Deus! – que é uma coisa que só acontece com mulheres. Ainda há quem confunda mulher e feminino? Não acredito!, diria aquela antiga amiga.

 Magda Maria Campos Pinto

 André Kertész, 1917,Gypsy Children Kissing, Esztergom, Hungary

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