segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Notas sobre o que está por vir

7.

Foi a primeira vez que me percebi estarrecida, paralisada, com todos os sentidos ligados. Eu não ouvia os gritos de Laura, eram gritos, eram, e eu só ouvia as palavras que me penetravam os ouvidos como fios de água gelada. Laura enlouquecera novamente, e novamente era levada para o hospital, e tudo parecia uma pantomima, a mesma, a de sempre. A ambulância atravessava as ruas com a sirene enlouquecida, os enfermeiros vinham, pessoas choravam, especialmente os filhos; a mãe e os irmãos choravam desesperadamente como se fossem obrigados a fazerem a  última coisa que eles queriam fazer;  Laura gritava como se fosse o fim do mundo, como se ela não tivesse forçado o mundo a fazer aquilo, como se fosse a vítima de tudo e todos. Como se.  Como se. Como se.
Cabisbaixo, murcho, calado num canto estava Estevão. Naquele dia eu estava presente quando pegaram o telefone e chamaram a ambulância. Laura havia quebrado as louças, ameaçado as pessoas com uma faca, ingerido álcool, cortado os cabelos e rasgado roupas. Arranhara o próprio rosto e tremia. Quando lhe disseram que iria voltar ao hospital ela se aquietou por um momento. Por segundos acalmou-se para, em seguida, reiniciar automaticamente a dor, elevada a sabe-se lá a que potência. Foi nesse momento que suas palavras começaram a penetrar em meus ouvidos como fios de água gelada. Petrificaram-me. Ela gritava e se debatia enquanto quatro homens a imobilizavam. “A verdade é o ódio odeio odeio vocês todos são mentirosos falsários inúteis eu faço tudo tudo tudo odeio esses filhos que não me dão nada só pedem mais mais mais estúpidos odeio você idiota burra mãe burra metida a vítima fingida você não presta mentirosa mentirosos fracos inúteis nojentos egoístas vocês querem me matar me matam porque eu faço o que eu quero porque eu não aceito porque eu trabalho eu tenho dinheiro vocês são covardes capachos meus capachos vocês me odeiam mas eu odeio mais muito mais capachos egoístas burros”, e ela dormiu. Os enfermeiros a carregaram. E a cortina se fechou.

Magda Maria Campos Pinto


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