quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Outros sonhos: DANTE MILANO

SONETO VI

Não sei de que cansaços me proveio
O peso que carrego sobre os ombros.
Sou como quem depois de um bombardeio,
Se levanta no meio dos escombros.

E sente a dor das pedras rebentadas,
Mais alta que o grito das criaturas
A dor do chão, dos muros, das calçadas,
De onde o pranto não brota, dores duras.

O único alívio é olhar o céu sem fundo,
O véu de sonho que recobre o mundo,
E absorve, esbate, anula realidade

Sob a expansão do azul intenso e forte.
Dor sem fim, olhar calmo além da morte,
Não desespero, sim perplexidade!


Dante Milano é um poeta brasileiro mais... MAIS. Pouco proclamado, talvez pouco conhecido, talvez, mas muito admirado por outros poetas, e dos grandes, como Drummond (um dos primeiros a aplaudi-lo). Milano nasceu no Rio de Janeiro em 1899 e morreu em Petrópolis em 1991. Autodidata, começou a trabalhar aos catorze anos, no Jornal do Comércio, e desde então se envolve definitivamente com a literatura e começa a estudar idiomas. Irá tornar-se  um grande tradutor brasileiro.
p.s: ver postagem de 30/08/2009


Carlos Drummond de Andrade, In O Dossiê Drummond, de Geneton Moraes Neto, Ed. Globo, 1994.
 "A popularidade nada tem a ver com a poesia. (...) Dante Milano é um poeta de extraordinária qualidade que não tem a mínina popularidade. Se você perguntar a um estudante quem é Dante Milano, ele não sabe. Se perguntar quais são os melhores poetas brasileiros, ele não inclui Dante Milano. A popularidade então não tem a menor importância".
Paulo Mendes Campos:
"Trata-se essencialmente de um poeta antilírico. A palavra lirismo é equívoca e exige uma conceituação pessoal. André Gide afirmava que sem religião não poderia haver lirismo. Preferia eu dizer que sem o jogo-do-faz-de-conta, sem o sentimento ilusório de que a vida tem um sentido, não pode haver lirismo. Dante Milano é o poeta antipoético, o poeta do desespero. Também este, o desespero, pode ser lírico, mas não o desespero seco, sem lágrimas como um soluço. Em todos os poemas deste livro, encontramos o mesmo timbre árido: em vez de sonho, o pesadelo; em vez da fantasia, a angústia; em vez de amor, um arremedo de posse bruta. O próprio poeta se espantou há muitos anos, quando lhe disse, com admiração, que a sua poesia me parecia sinistra. Releio agora os poemas, procuro cuidadosamente uma fresta lírica, um respiradouro, e chego à antiga conclusão: esta poesia é sinistra, nua, desértica."


Tudo é exílio. Tudo exceto a poesia.
Esta será a ocupação mais pura entre os humanos.
Aprisionar e libertar os seres pelo canto, como faz Orfeu.
(DANTE MILANO)

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