terça-feira, 17 de janeiro de 2012

WILLIAM FAULKNER

FAULKNER (1897-1962) é um dos maiores escritores americanos do século XX. Autor de vasta obra, foi mestre em colocar na escrita o fluxo da consciência, à maneira de Joyce, Proust, Mann e outros. Também trouxe para a literatura, a questão da perspectiva, descrevendo, às vezes simultaneamente, vários pontos de vista do mesmo fato. Mostrou com exuberância uma das faces americanas, mais precisamente a da exploração e decadência do Sul da Norte América. Recebeu o Nobel de Literatura em 1950, quando fez um curto, profético e inesquecível discurso. Venceu muitos outros prêmios. Teve vários de seus livros adaptados para o cinema, e também trabalhou em diversos roteiros.  

Alguns Romances: O som e a fúria, 1929 – Enquanto agonizo, 1930 – Santuário, 1931 – Luz em agosto, 1932 – Absalão, Absalão, 1936 – O povoado, 1940 – A cidade, 1957 – A mansão, 1959 – Os invictos, 1962 – Contos: Esquetes de Nova Orleans, 1958.

RECUSO-SE A ACEITAR O FIM DO HOMEM
(10 de dezembro de 1950, Estocolmo, Suécia)

Sinto que este premio não foi dado a mim pela minha pessoa, mas pelo meu trabalho – o trabalho de toda uma vida na angústia e ansiedade do espírito humano, não por glória e menos ainda por lucro, mas para criar a partir dos materiais da alma humana algo que ainda não existia. Portanto, ele está comigo em confiança. Não será difícil encontrar um destino para a parte em dinheiro que seja comensurável com o propósito e significado de sua origem. Mas eu gostaria de fazer o mesmo também com as aclamações, usando este momento como pináculo de onde poderei ser ouvido pelos jovens que se dedicam à mesma angústia e labuta, dentre os quais já se encontra aquele que algum dia estará aqui onde estou agora. Nossa tragédia atual é um medo físico generalizado e universal, sustentado há tanto tempo que podemos até tolerá-lo. Não há mais problemas da alma. Há apenas a pergunta: quando será que vou explodir? Por causa disso, os jovens que escrevem hoje esquecem os problemas do coração humano em conflito consigo mesmo, a única coisa capaz de  produzir boa literatura, pois só tem valor o que se escrever acerca dessa questão, e só ela vale a agonia e o suro.
É preciso reaprender isso. Esses jovens autores precisam ensinar a si próprios que a coisa mais básica de todas é o medo; devem, depois, esquece-lo de todo, sem deixar espaço em seu escritório  para nada que não sejam as antigas verdades do coração, as velhas verdades universais sem as quais todas as histórias são efêmeras e fatídicas – amor e honra e piedade e orgulho e compaixão e sacrifício. Enquanto não o fizer, o jovem autor ou autora trabalha sob os auspícios de uma maldição. Escreve sobre a luxúria, não sobre o amor; escreve sobre derrotas em que  não se perde algo de valor, sobre vitórias em esperança, e, pior de tudo, sem piedade ou compaixão. Lastima o pesar de uma essência que não é universal, não deixa marcas. Escreve sobre glândulas, e não  sobre o coração.
Enquanto não tornar a aprender essas coisas, os jovens autores escreverão como quem toma parte e assiste ao fim do homem. Recuso-me a aceitar o fim do homem. É bastante fácil dizer que o homem é imortal simplesmente porque resistirá: pois quando os derradeiros sons da ruína tiverem se esvaído na última pedra imprestável e inerte em meio à vermelhidão final do anoitecer, mesmo nesse momento haverá um ruído: o de sua débil e inexaurível voz, falando ainda. Recuso-me a aceitar isso. Acredito que o homem não irá simplesmente resistir: irá triunfar. Ele é imortal, não por ser a única das criaturas com uma voz inexaurível, mas porque tem alma, um espírito capaz de compaixão, sacrifico e resistência. O dever do poeta, do escritor, é escrever sobre essas coisas. É um privilégio seu ajudar o homem a resistir, elevando seu coração, lembrando-o da coragem e da honra e da esperança e do orgulho e da compaixão e da piedade e do sacrifício que fizeram a glória de seu passado. A voz do poeta não precisa ser apenas um registro do homem, pode ser também um dos alicerces, um dos pilares para ajudá-lo a resistir e a triunfar.

 

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