quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

SAUDADES DE DRUMMOND II



OS ÚLTIMOS DIAS

(continuação)

E cada instante é diferente, e cada
Homem é diferente, e somos todos iguais.
No mesmo ventre o escuro inicial, na mesma terra
O silencio global, mas não seja logo.
Antes dele outros silêncios penetrem,
Outras solidões derrubem ou acalentem
Meu peito; ficar parado em frente desta estátua; é um torso
De mil anos, recebe minha visita, prolonga
Para trás meu sopro, igual a mim
Na calma, não importa o mármore, completa-me.
O tempo de saber que alguns erros caíram, e a raiz
Da vida ficou  mais forte, e os naufrágios
Não cortaram essa ligação subterrânea entre homens e coisas:
Não desfigurou o rosto dos homens;
Que somos todos irmãos, insisto.
Em minha falta de recursos para dominar o fim,
Entretanto me sinta grande, tamanho de criança, tamanho de torre,
Tamanho da hora, que se vai acumulando século após século e causa vertigem,
Tamanho de qualquer João, pois somos todos irmãos.
E a tristeza de deixar os irmãos me faça desejar
Partida menos imediata. Ah, podeis rir também,
Não da dissolução, mas do fato de alguém resistir-lhe,
De outros virem depois, de todos sermos irmãos,
No ódio, no amor, na incompreensão e no sublime
Cotidiano, tudo, mas tudo é nosso irmão.
 (continua)

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Neruda e Rimbaud :

“Un pobre y espléndido poeta, el más atroz de los desesperados, escribió esta profecía: “Al amanecer, armados de una ardiente paciencia, entraremos a las espléndidas ciudades”. Yo creo en esta profecía de Rimbaud… Siempre tuve confianza en el hombre. No perdí jamás la esperanza. Por eso tal vez he llegado hasta aquí con mi poesía, y también con mi bandera.
En conclusión, debo decir a los hombres de buena voluntad, a los trabajadores, a los poetas, que el entero porvenir fue expresado en esa frase de Rimbaud: sólo con una ardiente paciencia conquistaremos la espléndida ciudad que dará luz, justicia y dignidad a todos los hombres. Así la poesía no habrá cantado en vano".

(Pablo Neruda, fragmento do Discurso do Premio Nobel)


SAUDADES DE DRUMMOND



OS ÚLTIMOS DIAS

Carlos Drummond de Andrade
Que a terra há de comer.
Mas não coma já.
Ainda se mova,
Para o ofício e a posse.
E veja alguns sítios
Antigos, outros inéditos.
Sinta frio, calor, cansaço;
Pare um momento; continue.
Descubra em seu movimento
Forças não sabidas, contatos.
O prazer de estender-se; o de
Enrolar-se, ficar inerte.
Prazer de balanço, prazer de vôo.
Prazer de ouvir música;
Sobre papel deixar que a mão deslize.
Irredutível prazer dos olhos;
Certas cores: como se desfazem, como aderem;
Certos objetos, diferentes a uma luz nova;
Que ainda sinta cheiro de fruta,
De terra na chuva, que pegue,
Que imagine e grave, que lembre.
O tempo de conhecer mais algumas pessoas,
De aprender como vivem, de ajudá-las.
De ver passar este conto: o vento
Balançando a folha; a sombra
Da árvore, parada um instante,
Alongando-se com o sol, e desfazendo-se
Numa sombra maior, de estrada sem trânsito.
E de olhar esta folha, se cai.
Na queda rete-la. Tão seca, tão morna.
Tem na certa um cheiro, particular entre mil.
Um desenho, que se produzirá ao infinito,
E cada folha é uma diferente.
(continua)

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Então veio o dia do Oscar...

E o Oscar vai para... mim!! Pois é, não se assustem. Então, veio o Oscar nosso de cada ano, e dessa vez, eu adorei. Verdade. Desde a cerimônia mais enxuta, o Billy Cristal (que é bom mesmo) às premiações, eu gostei. Tudo de bom para O Artista, filme francês, inovando e tal. Depois falaremos dele. Tudo de bom também para Hugo Cabret, de Mr. Scorsese, que é ótimo. E melhor roteiro original para Meia-noite em Paris, que eu simplesmente amo. E melhor ator coadjuvante para Christopher Plummer, em Begginers, perfeito num filme maravilhoso.  Mas o melhor, o melhor de verdade, É o curta de animação. Uauuuu. Conto para vocês que, não tenho dúvidas, foi inspirado em mim. E agora tenho que certeza que vou para o céu. E lá me encontrarei com o Borges, claro. CURTAM ISSO, GENTE!
E muito obrigada, Rodrigo. 



Vencedores
Melhor Filme: O Artista
Melhor Diretor: Michel Hazanavicius (O Artista)
Melhor Ator: Jean Dujardin (O Artista)
Melhor Atriz; Meryl Streep (A Dama de Ferro)
Melhor Ator Coadjuvante : Christopher Plummer (Toda Forma de Amor)
Melhor Atriz Coadjuvante: Octavia Spencer (Histórias Cruzadas)
Melhor Roteiro Original: Meia-Noite em Paris
Melhor Roteiro Adaptado: Os Descendentes
Melhor Trilha Sonora: O Artista
Melhor Canção: “Man or Muppet” (Os Muppets)
Melhor Filme Estrangeiro: A Separação (Irã)
Melhor Animação: Rango
Melhor Curta-metragem: The Shore
Melhor Curta (animação): The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore
Melhor Fotografia: A Invenção de Hugo Cabret
Melhor Direção de Arte: A Invenção de Hugo Cabret
Melhor Figurino: O Artista
Melhor Maquiagem: A Dama de Ferro
Melhor Documentário (Longa): Undefeated
Melhor Documentário (Curta): Saving Face
Melhor Montagem: Millennium – Os Homens Que Não Amavam as Mulheres
Melhores Efeitos Visuais: A Invenção de Hugo Cabret
Melhor Efeitos Sonoros: A Invenção de Hugo Cabret
Melhor Edição de Som: A Invenção de Hugo Cabret

El Greco: encontro e confronto. Mística saída.

  "O Enterro do Conde Orgaz", (1586), El Greco, em San Tomé, Toledo, na Espanha

O clero de Toledo encomendou a El Greco, o seguinte trabalho para celebrar o senhor conde Orgaz:

“Na tela tem-se de pintar uma procissão, (e) como o cura e os outros clérigos que estavam fazendo os ofícios para enterrar a D. Gonzalo Ruiz de Toledo, senhor da Vila de Orgaz, quando baixaram Santo Agostinho e Santo Estevão para enterrarem o corpo deste cavaleiro, um segurando-o da cabeça e o outro dos pés, deitando-o na sepultura, e fingindo ao redor muitas pessoas que estava olhando e em cima de tudo isto tem-se de fazer um céu aberto de glória ...”

Alguns consideram ser essa a obra maior de El Greco (uma grande sinfonia fúnebre’ segundo o crítico Paul Guignard), “O enterro do Conde Orgaz” está catalogada entre as 10 maiores pinturas do mundo. Aqui se representam dois reinos: o celestial e o terreno ( próprio enfrentamento que se dava na Europa daqueles tempos).  Em plena maturidade, El Greco apresenta os traços específicos de seu trabalho: figuras alongadas, corpos vigorosos e distorcidos, uso arbitrário de luzes e sombras, e o esplendor místico. Ou seja, o maneirismo coroado com o fantástico e o intangível. O grande número de personagens reais incluídos, faz com que o quadro represente o primeiro retrato coletivo da história da arte espanhola, em que se pese o anacronismo, reunindo personagens que se distanciam mais de 200 anos. E se incluem também o filho do pinto (a criança em primeiro plano que parece apresentar a cena ao público) e o próprio pintor, o segundo à esquerda, entre os fidalgos em linha, atrás do conde morto e de Santo Agostinho e Santo Estevão que o amparam)
El Greco (1541-1614) é uma espécie de simbiose cultural; seu traço é um encontro de culturas – a bizantina, italiana e espanhola – somando-se os acontecimentos históricos que fizeram do século XVI um tempo de transformações político-sociais profundas. Nascido na ilha de Creta, sob domínio de Veneza, viveu a juventude na Itália, no tempo do Renascimento, mas sua maturidade se deu na Espanha – especificamente Toledo -, reduto da Contra-Reforma e resistência às mudanças político-ideológicas que tomavam a Europa. El Greco foi um intelectual, frequentou a elite política e cultural por onde esteve. Existe o filme ‘El Greco’ de 2007, que procura mostrar o conflitos da época, além da biografia do pintor. É  superprodução de três países (com predominância da Grécia – gastando mal o seu dinheiro) e não é um bom filme: redundante, previsível, maniqueísta, cheio de clichês. Valem algumas poucas cenas, e a música de Vangelis. E vale para se aproximar de El Greco.  

domingo, 26 de fevereiro de 2012

A PEQUENA MORTE

“Não nos provoca riso o amor quando chega ao mais profundo de sua viagem, ao mais alto de seu voo: no mais profundo, no mais alto, nos arranca gemidos e suspiros, vozes de dor, embora seja dor jubilosa, e pensando bem não há nada de estranho nisso, porque nascer é uma alegria que dói. Pequena morte, chamam na França a culminação do abraço, que ao quebrar-nos faz por juntar-nos, e perdendo-nos faz por encontrar-nos e acabando conosco nos principia. Pequena morte, dizem; mas grande,muito grande haverá de ser, se ao nos matar nos nasce.” 

In O livro dos abraços, Eduardo Galeano, L&PM, Porto Alegre, 1991.

PARA O CRISTIANO:

"A alienação humana através do excedente de trabalho é substituída pela servidão maquínica generalizada, extensiva às crianças, desempregados, aposentados, e envolvendo a mídia, entretenimento, estilos de vida, novos modelos urbanos, com o capital circulante recriando-se a si mesmo num espaço liso. A distinção chave não é mais entre capital constante e capital variável, ou mesmo entre capital fixo e capital circulante, mas entre capital estriado (aparelhos do estado moderno) e capital liso (multinacionais e globalização). Em todo caso o capitalismo é incapaz de absorver o excedente maquínico e os fluxos que ele gera apesar de suas tentativas de repressão ou de sobrecodificação através seja do controle e regulação estatal seja da infantilização midiática. Ainda que em certa medida o capitalismo seja dono da mais valia e de sua distribuição, ele não domina os fluxos dos quais deriva a mais valia. Assim,  a subjetividade maquínica que emerge da produção capitalista é rizomática, vem de várias direções e também extrapola a lógica produtivista e utilitarista do capital,em direções imprevisíveis e incalculáveis.
Com isso, Deleuze teria mostrado o movimento imanente que está por trás do niilismo, apontando para as rupturas que desafiam as leis imutáveis da vida e do capital, e que condenariam a vida individual e social ao eterno retorno niilista, dissipando assim as forças do fora e minimizando seus poderes de renovação". 

In Vida Capital, ensaios de biopolítica, Peter Pál Pelbart, Iluminuras, SP, 2011.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Mais, ainda...


Há muitas formas de morrer. Algumas são insuportavelmente dolorosas porque são modos do medo de viver. Sam Mendes, diretor de teatro que estreou no cinema com Beleza Americana (American Beauty, 1999), tratou disso em “Revolutionary Road”, filme de 2008, com um ótimo Leonardo di Caprio e a maravilhosa Kate Winslet, que naquele ano ganhou o Oscar por O leitor (merecidamente) mas que também poderia ganhar por esse filme (aqui chamado ‘Foi apenas um sonho’). Filme difícil, poderoso, que incomoda, que pergunta, pergunta e pergunta. E a vida... o que é, meu irmão?
 O trabalho e o dinheiro? O casamento, filhos e conforto? E a doença mental... tem a ver com verdade? E o sonho com a realidade? E a vida... o que é, o que é, meu irmão?  
 Grande filme, mas não o veja se você não está interessado em cuidar da própria vida. Aliás Sam Mendes é um dos que não recua. Sua filmografia está entre os grandes trabalhos do cinema desses nossos dias.

Ainda: não me roubem minha morte...


É nosso destino: essa dependência... Não dependemos de ninguém por causa da vida, responsabilidade e trabalho de cada um. Mas não temos nenhuma autonomia sobre nossa morte, não mais...  Eu digo: não me roubem a minha morte, que deverá ser o ápice de minha vida, ou seja, a mais pura poesia. Já basta a poesia que roubaram de minha vida. Hoje, estou feroz. Preciso de Neruda. 
 

“Nosotros, los perecederos, tocamos los metales, el viento, las orillas del océano, las piedras, sabiendo que seguirán, inmóviles o ardientes,
E  yo fui descubriendo, nombrando todas las cosas: fue mi destino amar y despedirme”. 

“Deber de los poetas es cantar con sus pueblos y dar al hombre lo que es del hombre: sueño y amor, luz y noche, razón y desvarío.”

Contestando una encuesta:
“Preguntan qué pasará con la poesía en el año 2000. Es una pregunta peluda. Si esta pregunta me saliera al paso en un callejón oscuro me llevaría un susto de padre y señor mí. Porque, ¿qué se yo del año 2000? De lo que estoy seguro es que no se celebrará el funeral de la poesía en el próximo siglo. En cada época han dado por muerta a la poesía, pero esta se ha demostrado vitalicia, resucita con gran intensidad, parece ser eterna. La poesía acompaño a los agonizantes y restaño los dolores, condujo a las victorias, acompañó a los solitarios, fue quemante como el fuego, ligera y fresca como la nieve, tuvo manos, dedos y puños, tuvo brotes como la primavera: echó raíces en el corazón del hombre.”
In Regalo de un Poeta, Pablo Neruda, DTP Ediciones, Buenos Aires, Argentina, 2004.