terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

ARTE 3

 “Gratuito. Era bem assim que ele entendia. Um presente. Um momento fora dos momentos. Apesar de tudo. A história noturna o liberava do peso do dia. Largávamos as amarras. Ele ia com o vento, imensamente leve,e o vento era a nossa voz.
Como preço dessa viagem, não se exigia nada dele, nem um tostão, não se pedia a menor compensação. E não era nem mesmo uma recompensa. (Ah! As recompensas – como era preciso se mostrar digno de te sido recompensado!) Aqui, tudo se passava no país da gratuidade.
A gratuidade, que é a única moeda da arte”.
 In Como um romance, Daniel Pennac, Rocco, RJ, 1993.

Daniel Pennac nasceu em Casablanca, em 1944. Filho de oficial da marinha passou a infância viajando pelas colônias francesas, serviu o exército e se tornou professor de francês. Tornou-se autor de sucesso ao escrever sobre os livros, e em especial sobre a leitura, ‘esse ato íntimo, alquimia privilegiada e misteriosa entre autor e leitor’. Seu grande princípio é a leitura em voz alta, e em grupo. Daniel Pennac começou a carreira de escritor fazendo literatura infanto-juvenil, depois para adultos e se tornou um fenômeno ao escrever sobre a profissão ‘professor’. Em Diário de Escola (Rocco) exalta o mestre, os professores que ‘lhe salvaram a vida’, conta de seus conflitos com a grande dificuldade que viveu na escola durante a infância e adolescência, e discorre longamente sobre as malfadadas ‘dificuldades escolares’. Este livro recebeu o prêmio Reanudot 2007.

Os direitos do leitor, segundo Daniel Pennac:

O direito de não ler.
O direito de pular as páginas.
O direito de não terminar de ler o livro.
O direito de reler.
O direito de ler não importa o quê.
O direito ao “bovarysmo” (doença textualmente transmissível).*
O direito de ler não importa onde.
O direito de “colher aqui e acolá”.
O direito de ler em voz alta.
O direito de se calar.
* Bovarismo s. m. (fr. bovarysme; ing. bovarism). Tendência patológica para se idealizar, para se identificar com uma personagem que se admira ou que se inveja a qualquer título (pela sua fortuna, pela sua importância, pela sua posição social, etc.). Ling.: Segundo Madame Bovary, romance de Gustave Flaubert. Trocando em miúdos: uma visão deturpada de si mesmo, uma autoconcepção diferente da realidade ou se pretender ser o que na verdade não se é. (in Delta Larousse) 

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