sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

DA EDUCAÇÃO: BENJAMIN, GOETHE E FREUD

“Um tal estudo teria, por fim, de examinar a grande lei que, acima de todas as regras e ritmos particulares, rege a totalidade do mundo dos jogos: a lei da repetição. Sabemos que para a criança ela é a alma do jogo; que nada a torna mais feliz do que o ‘mais uma vez’. A obscura compulsão por repetição não é aqui no jogo menos poderosa, menos manhosa do que o impulso sexual no amor. E não foi por acaso que Freud acreditou ter descoberto um ‘além do princípio do prazer‘ nessa compulsão. E, de fato, toda e qualquer experiência mais profunda deseja insaciavelmente, até a final de todas as coisas, repetição e retorno, restabelecimento da situação primordial da qual ela tomou o impulso inicial.

“Tudo à perfeição talvez se aplainasse
Se uma segunda chance nos restasse”


A criança age segundo esta pequena sentença de Goethe. Para ela, porém não bastam duas vezes, mas sim sempre de novo, centenas e milhares de vezes. Não se trata apenas de um caminho para assenhorear de terríveis experiências primordiais mediante o embotamento, conjuro malicioso ou paródia, mas também de saborear, sempre de novo e da maneira mais intensa, os triunfos e as vitórias. O adulto, ao narrar uma experiência, alivia o seu coração dos horrores, goza duplamente uma felicidade. A criança volta a criar para si todo o fato vivido, começa mais uma vez do início. Talvez resida aqui a mais profunda raiz para o duplo sentido nos ‘jogos’ alemães [spiele no original, que pode se traduzido aqui tanto por ‘jogos’ como ‘brincadeiras’; além disso, o verbo spielen, relacionado a esse substantivo, tem, entre outros significados, o de ‘brincar’, ‘jogar’, assim com o de ‘representar’ (no teatro, por exemplo). Benjamin parece aludir à polissemia dessa palavra quando fala do “duplo sentido nos ‘jogos’ alemães]: repetir o mesmo seria o elemento verdadeiramente comum. A essência do brincar não é um ‘fazer como se’, mas um ‘fazer sempre de novo’, transformação da experiência mais comovente em hábito.
Pois é o jogo, e nada mais, que dá à luz todo hábito. Comer, dormir, vestir-se, lavar-se devem ser inculcados no pequeno irrequieto de maneira lúdica, com o acompanhamento do ritmo de versinhos. O hábito entra na vida como brincadeira, e nele, mesmo em suas formas mais enrijecidas, sobrevive até o final um restinho de brincadeira. Formas petrificadas e irreconhecíveis de nossa primeira felicidade, de nosso primeiro terror, eis o que são os hábitos. E mesmo o pedante mais insípido brinca, sem o saber, de maneira pueril, não infantil, brinca ao máximo quando é pedante ao máximo. Acontece apenas que ele não se lembrará de sua brincadeira; somente para ele uma obra como essa permaneceria muda. Mas quando um poeta moderno diz que para cada um existe uma imagem em cuja contemplação o mundo inteiro submerge, para quantas pessoas essa imagem não se levanta de uma velha caixa de brinquedos?”
In Reflexões sobre a criança, o brinquedo e a educação, Walter Benjamin, Editora 34, SP, 2002 (no capítulo citado Benjamin se refere ao livro de Karl Gröber, Brinquedos infantis de velhos tempos. Uma história do brinquedo, Berlim, 1928)

p.s: grifos meus

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