segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

El Greco: encontro e confronto. Mística saída.

  "O Enterro do Conde Orgaz", (1586), El Greco, em San Tomé, Toledo, na Espanha

O clero de Toledo encomendou a El Greco, o seguinte trabalho para celebrar o senhor conde Orgaz:

“Na tela tem-se de pintar uma procissão, (e) como o cura e os outros clérigos que estavam fazendo os ofícios para enterrar a D. Gonzalo Ruiz de Toledo, senhor da Vila de Orgaz, quando baixaram Santo Agostinho e Santo Estevão para enterrarem o corpo deste cavaleiro, um segurando-o da cabeça e o outro dos pés, deitando-o na sepultura, e fingindo ao redor muitas pessoas que estava olhando e em cima de tudo isto tem-se de fazer um céu aberto de glória ...”

Alguns consideram ser essa a obra maior de El Greco (uma grande sinfonia fúnebre’ segundo o crítico Paul Guignard), “O enterro do Conde Orgaz” está catalogada entre as 10 maiores pinturas do mundo. Aqui se representam dois reinos: o celestial e o terreno ( próprio enfrentamento que se dava na Europa daqueles tempos).  Em plena maturidade, El Greco apresenta os traços específicos de seu trabalho: figuras alongadas, corpos vigorosos e distorcidos, uso arbitrário de luzes e sombras, e o esplendor místico. Ou seja, o maneirismo coroado com o fantástico e o intangível. O grande número de personagens reais incluídos, faz com que o quadro represente o primeiro retrato coletivo da história da arte espanhola, em que se pese o anacronismo, reunindo personagens que se distanciam mais de 200 anos. E se incluem também o filho do pinto (a criança em primeiro plano que parece apresentar a cena ao público) e o próprio pintor, o segundo à esquerda, entre os fidalgos em linha, atrás do conde morto e de Santo Agostinho e Santo Estevão que o amparam)
El Greco (1541-1614) é uma espécie de simbiose cultural; seu traço é um encontro de culturas – a bizantina, italiana e espanhola – somando-se os acontecimentos históricos que fizeram do século XVI um tempo de transformações político-sociais profundas. Nascido na ilha de Creta, sob domínio de Veneza, viveu a juventude na Itália, no tempo do Renascimento, mas sua maturidade se deu na Espanha – especificamente Toledo -, reduto da Contra-Reforma e resistência às mudanças político-ideológicas que tomavam a Europa. El Greco foi um intelectual, frequentou a elite política e cultural por onde esteve. Existe o filme ‘El Greco’ de 2007, que procura mostrar o conflitos da época, além da biografia do pintor. É  superprodução de três países (com predominância da Grécia – gastando mal o seu dinheiro) e não é um bom filme: redundante, previsível, maniqueísta, cheio de clichês. Valem algumas poucas cenas, e a música de Vangelis. E vale para se aproximar de El Greco.  

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