quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Estudando: da intransponível barreira ‘palavra e coisa’, ‘objeto e discurso’, ‘fala e gesto’


“A interpretação de Foucault do quadro de Velásquez ‘Las meninas’, que constitui o primeiro capítulo de seu livro As palavras e as coisas, é uma tentativa de ilustrar, através da análise da representação clássica, o abismo que existe entre o objeto e o discurso, entre a palavra e a coisa, a fala e o gesto. Ao buscar uma ordenação da realidade através de uma determinação das semelhanças que dentro dela opera a presença humana, a razão acaba por criar, no seio mesmo dessa realidade, um espaço em branco, um código neutralizante, onde a presença do homem-agente é elidida em função de seu intérprete, ou de seu análogo, ou seja, do seu discurso mesmo. ‘Las meninas’ constitui, segundo a análise de Foucault, um exemplo dessa inversão no âmbito da representação clássica, que ‘tenta representar-se a si mesma com todos os seus elementos, com suas imagens, os olhares a que se oferecem os rostos que torna visíveis, os gestos que a fazem nascer’. Abrindo ao infinito seu espaço próprio, a representação rompe com as barreiras do discurso em sua compreensão do real, mas simultaneamente,torna impossível a determinação do limite entre esse real e a representação mesma. Ao invés de traduzir ou acompanhar o gesto humano que se processa como um exercício da própria razão, o discurso se torna uma ’representação da representação’, onde ‘é imperiosamente indicado em todas as partes um vazio essencial: a desaparição necessária daquilo que a funda’, ‘daquele aos olhos do qual a representação não passa de semelhança.”

In  Sônia Viegas, Escritos – Filosofia e arte, Tessitura, Belo Horizonte, 2009.


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