segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Grammy/2012 e Rimbaud ou E la nave va... ave, Fellini, amém.

NOITE NO INFERNO

“Engoli um senhor gole de veneno. – Tres vezes abençoado seja o conselho que me deram! – As entranhas me ardem. A violência do veneno torce meus membros, me torna disforme, me prostra. Morro de sede, sufoco, não consigo gritar. É o inferno, a pena eterna! Vejam com o fogo se ergue! Queimo como deve ser. Anda, demonio!
Entrevi a conversão ao bem e à felicidade, a salvação. Pudesse descrever a visão, o ar do inferno não suporta hinos! Eram milhões de criaturas encantadoras, um suave concerto espiritual, a força e a paz, as nobres ambições, que sei?
As nobres ambições!
E ainda é a vida! – se a danação é eterna! Um homem que quer se mutilar está condenado, não é? Não creio no inferno, pois estou nele. É a execução do catecismo. Sou escravo do meu batismo. Pais, fizeram a minha desgraça e a de vocês. Pobre inocente! – o inferno não pode acometer os pagãos. – É a vida ainda! Mais tarde, as delícias da danação vão ser mais profundas. Um crime, ligeiro, que eu caia no nada, segundo a lei humana.
Cala-te, mas cala-te!... É a vergonha, a censura, aqui: Satã é quem diz que o fogo é abjeto, que minha cólera é terrivelmente tola. – Basta!... Os equívocos que me passam, magias, falsos perfumes, músicas pueris. – E dizer que apreendo a verdade, discirno a justiça: possuo um julgamento são e moderado, estou pronto para a perfeição. Orgulho. – A pele do meu crânio desseca. Piedade! Senhor, tenho medo. E sede, tanta sede! Ah! A infância, a grama, a chuva, o lago sobre as pedras, o luar quando o campanário batias as doze... o diabo está ali nessa hora. Maria! Santa Virgem!... – Horror da minha tolice.
Não estão lá boas gentes, que me querem bem?... Venham... Tenho um travesseiro na boca, não me escutam, são fantasmas. Ademais, nunca ninguém pensa no outro. Não cheguemos perto. Sinto cheiro de queimado, é certo.
As alucinações são inumeráveis... É bem o que eu sempre tive: não mais fé na história, o esquecimento dos princípios. Não falo deles: poetas e visionários teriam inveja. Sou mil vezes mais rico, sejamos avaros como o mar.”

In Uma temporada no inferno, Arthur Rimbaud, L&PM, Porto Alegre, Edição bilíngüe, Tradução de Paulo Hecker Filho,2008.


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