terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Para o Pedro:


"15 de dezembro
O meu estado atual é bastante grave para poder meditar nas conclusões que eu tirei. Direi que de nenhum modo é um estado novo? A minha real opinião é a seguinte: já conheci semelhante, porém jamais conheci idêntico. Sou de pedra; sou aminha própria lápide tumular, sem qualquer fresta para a dúvida nem para a fé, para o amor, nem para a repulsa, para a audácia nem a angústia, em particular ou em caráter geral; apenas uma tênue esperança vive, porém à maneira das inscrições nos túmulos. Nem uma palavra, à medida que escrevo, conjuga-se com outra, escuto consoantes que se chocam,soando ocas, as vogais cantando como negros de Exposição. As minhas dúvidas fazem o bloqueio a cada palavra antes até que eu o entenda, que estou dizendo, não vejo tal palavra, eu a invento! Contudo a desventura não seria grande se pudesse pelo menos inventar palavras capazes de expulsarem o fedor pútrido a fim de que  nem eu nem o leitor fôssemos molestados. Sentado à minha mesa de trabalho, eu não estou mais à vontade do que qualquer outro que, na Praça da Ópera, quebrasse as pernas em pleno tráfego. Todos os carros, provenientes de todos os lados, apressam-se em todas as direções, porém melhor do que os policiais a dor deste homem, não obstante o alarido, mantém a ordem,a dor que faz com que  ele cerre os olhos e esvazia a praça e as ruas sem que os carros deixem de passar. A vida vária faz com que ele sofra, visto como obstrói a circulação, porém o vazio não é menos doloroso, porque liberta a sua dor propriamente dita."

In Diários, Franz Kafka, Editora Itatiaia, Belo Horizonte, 2000.

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