sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Primeira dica de leitura:

“A defesa da vida tornou-se um lugar-comum. Todos a invocam, desde os que se ocupam de manipulação genética aos que empreendem guerras planetárias. Alguns veem nas formas de vida existentes e na sua diversidade um reservatório infinito de lucro e pesquisa; outros, um patrimônio inalienável da humanidade. Alguns deploram que a vida tenha sido decomposta e recombinada ‘artificialmente’ a ponto de seu conceito mesmo ter sido volatizado; outros celebram que tal ‘desnaturalização’ abre a via, por fim, para novas formas de ‘pós-humanidade’. Esse debate inconcluso é o sintoma, talvez, de um paradoxo que está no cerne da condição contemporânea. Por um lado, a vida tornou-se o alvo supremo do capital. Por outro, a vida mesma tornou-se um capital, senão ‘o’ capital por excelência, de que todos, e qualquer um, dispõem, virtualmente, com conseqüência  políticas a determinar. (...) Essa situação ambígua foi tematizada embrionariamente por Michel Foucault já em meados dos anos 70. Muito cedo ele intuiu que aquilo mesmo que o poder investia prioritariamente – a vida – era precisamente o que doravante ancoraria a resistência a ele, numa reviravolta inevitável. Mas talvez ele não tenha levado essa intuição até as últimas consequências. Coube a Deleuze explicitar que ao poder sobre a vida (biopoder) deveria respondee o poder da vida (biopotência), a potência ‘política’ da vida, na medida em que ela faz variar suas formas, e reinventa suas coordenadas de enunciação”.

In Vida Capital – Ensaios de Biopolítica – Peter Pál Pelbart – Iluminuras,SP, 2011

 Peter Pál Pelbart é filósofo e ensaísta. Graduou-se em Filosofia pela Université de Paris IV, Sorbonne. É mestre em Filosofia (PUC-SP) e doutor em Filosofia (USP). Atualmente é professor titular da PUC-SP. Publicou entre outros livros O Tempo não-reconciliado, A vertigem por um fio e Vida Capital – ensaios de biopolítica. Traduziu diversas obras de Gilles Deleuze. É coordenador da Cia Teatral Ueinzz.

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