quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

SAUDADES DE CECÍLIA

CANÇÃO

Não sou a das águas vista
Nem a dos homens amada;
Nem a que sonhava o artista
em cujas mãos fui formada.
Talvez em pensar que exista
Vá sendo eu mesma enganada.

Quando o tempo em seu abraço
Quebra meu corpo, e tem pena,
Quanto mais me despedaço,
Mais fico inteira e serena.
Por meu dom divino, faço
Tudo a que Deus me condena.

Da virtude de estar quieta
Componho o meu movimento.
Por indireta e direta,
Perturbo estrelas e vento.
Sou a passagem da seta
E a seta, - em cada momento.

Não diga aos que encontrares
Que fui conhecida tua.
Quando houve nos largos mares
Desenho certo de rua?
E de teres visto luares,
Que ousarás contar da lua?

(Cecília Meireles, poetisa brasileira, pintora, jornalista, professora, tradutora...)

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