quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

SAUDADES DE DRUMMOND II



OS ÚLTIMOS DIAS

(continuação)

E cada instante é diferente, e cada
Homem é diferente, e somos todos iguais.
No mesmo ventre o escuro inicial, na mesma terra
O silencio global, mas não seja logo.
Antes dele outros silêncios penetrem,
Outras solidões derrubem ou acalentem
Meu peito; ficar parado em frente desta estátua; é um torso
De mil anos, recebe minha visita, prolonga
Para trás meu sopro, igual a mim
Na calma, não importa o mármore, completa-me.
O tempo de saber que alguns erros caíram, e a raiz
Da vida ficou  mais forte, e os naufrágios
Não cortaram essa ligação subterrânea entre homens e coisas:
Não desfigurou o rosto dos homens;
Que somos todos irmãos, insisto.
Em minha falta de recursos para dominar o fim,
Entretanto me sinta grande, tamanho de criança, tamanho de torre,
Tamanho da hora, que se vai acumulando século após século e causa vertigem,
Tamanho de qualquer João, pois somos todos irmãos.
E a tristeza de deixar os irmãos me faça desejar
Partida menos imediata. Ah, podeis rir também,
Não da dissolução, mas do fato de alguém resistir-lhe,
De outros virem depois, de todos sermos irmãos,
No ódio, no amor, na incompreensão e no sublime
Cotidiano, tudo, mas tudo é nosso irmão.
 (continua)

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