terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

SAUDADES DE DRUMMOND



OS ÚLTIMOS DIAS

Carlos Drummond de Andrade
Que a terra há de comer.
Mas não coma já.
Ainda se mova,
Para o ofício e a posse.
E veja alguns sítios
Antigos, outros inéditos.
Sinta frio, calor, cansaço;
Pare um momento; continue.
Descubra em seu movimento
Forças não sabidas, contatos.
O prazer de estender-se; o de
Enrolar-se, ficar inerte.
Prazer de balanço, prazer de vôo.
Prazer de ouvir música;
Sobre papel deixar que a mão deslize.
Irredutível prazer dos olhos;
Certas cores: como se desfazem, como aderem;
Certos objetos, diferentes a uma luz nova;
Que ainda sinta cheiro de fruta,
De terra na chuva, que pegue,
Que imagine e grave, que lembre.
O tempo de conhecer mais algumas pessoas,
De aprender como vivem, de ajudá-las.
De ver passar este conto: o vento
Balançando a folha; a sombra
Da árvore, parada um instante,
Alongando-se com o sol, e desfazendo-se
Numa sombra maior, de estrada sem trânsito.
E de olhar esta folha, se cai.
Na queda rete-la. Tão seca, tão morna.
Tem na certa um cheiro, particular entre mil.
Um desenho, que se produzirá ao infinito,
E cada folha é uma diferente.
(continua)

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