quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Vermeer e Proust:

 (A vista de Delft - Dániel Lázlo)

Para o Léo:

“Desatinado por um sofrimento de todos os minutos, a que se acrescentava insônia cortada de breves pesadelos, Bergotte não quis mais saber de médicos e experimentou com bons resultados, mas em demasia, vários narcóticos, lendo confiantemente  a bula de cada um deles, bula que proclamava a necessidade do sono mas insinuando que todos os produtos daquela natureza (exceto o contido no vidro que ela envolvia,o qual jamais causava intoxicação) eram tóxicos e por isso tornavam o remédio pior do que o mal. Bergotte experimentou todos eles. Alguns são de família diferente daquelas a que estamos habituados, derivados, por exemplo, da amila e do etilo. Não se ingere o produto novo, de composição inteiramente diversa, senão com a deliciosa expectativa do desconhecimento. O coração bate como numa primeira entrevista amorosa. A que gêneros ignorados de sono, de sonhos irá conduzir-nos o recém-vindo? Está agora dentro de nós, assume a direção das nossas idéias. De que maneira vamos adormecer e uma vez adormecidos, por que estranhos caminhos, sobre que cimos, a que abismos inexplorados nos irá conduzir o guia todo-poderoso? Que novo agrupamento de sensações vamos conhecer nessa viagem: será que vai levar-nos ao mal estar? À bem-aventurança? À morte? A de Bergotte sobreveio na véspera daquele dia, quando se entregara em confiança a um desse amigos (amigo? Inimigo?) demasiado enérgicos.  Morreu nas circunstancias seguintes. Por causa de uma crise de uremia sem maior gravidade lhe haviam prescrito o repouso. Lendo, porém, num crítico, que na Vista de Delft de Vermeer (emprestado pelo museu de Haia para uma exposição holandesa), quadro que ele apreciava muitíssimo e julgava conhecer em todos os pormenores, havia um panozinho de muro amarelo (de que não se lembrava) tão bem pintado que era como uma preciosa obra de arte chinesa, de uma beleza completa em si mesma, Bergotte comeu umas batatas, saiu de casa e entrou na exposição. Logo nos primeiros degraus que teve de subir sentiu umas tonteiras. Passou em frente de alguns quadros e teve a impressão de secura e da inutilidade de uma arte tão factícia, e não valia as correntes de ar e de sol de um palazzo de Veneza, ou de uma simples casa à beira-mar. Enfim chegou diante do Vermeer, de que se lembrava como sendo mais luminoso, mais diferente de tudo o que conhecia, mas onde, graças ao artigo do crítico, reparou pela primeira vez numas figurinhas vestidas de azul, na tonalidade cor-de-rosa da areia e finalmente na preciosa matéria do pequenino pano de muro amarelo. As tonteiras aumentavam; não tirava os olhos, como faz o menino com a borboleta amarela que quer pegar, do preciso panozinho de muro. ‘Assim é que eu deveria ter escrito, dizia consigo. Meus últimos livros são demasiado secos, teria sido preciso passar várias camadas de tinta, ornar a minha frase preciosa em si mesma, como este panozinho de muro’. Não lhe passava, porém despercebida a gravidade das tonteiras. Em celestial balança lhe aparecia, num prato a sua própria vida, no outro o panozinho de muro tão bem pintado de amarelo. Sentia Bergotte que imprudentemente arriscara o primeiro pelo segundo. ‘Não gostaria nada, disse consigo, de vir a ser para os jornais da tarde a nota sensacional desta exposição’.
Repetia para si mesmo: ‘Panozinho de muro amarelo com alpendre suspenso, panozinho de muro amarelo’. Nisso deixou-se cair subitamente, num canapé circular; subitamente também, cessou de pensar que estava em jogo a sua vida e, recobrando o otimismo, disse consigo: ‘É uma simples indigestão causada por aquelas batatas mal cozidas, não há de ser nada’. Nova crise prostrou-o, ele rolou do canapé ao chão, acorreram todos os visitantes e guardas. Estava morto. Morto para sempre? Quem o poderá dizer?”

In Em busca de tempo perdido – A prisioneira, Marcel Proust, tradução de Manuel Bandeira e Lourdes Sousa de Alencar, Editora Globo, RJ, 1981.

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