sábado, 31 de março de 2012

ATENÇÃO GRUPO DE ESTUDOS: esquentando...

(...)
“Pertence verdadeiramente ao seu tempo, é verdadeiramente contemporâneo, aquele que não coincide perfeitamente com este, nem está adequado às suas pretensões e é, portanto, nesse sentido, inatual; mas , exatamente por isso, exatamente através desse deslocamento e desse anacronismo, ele é capaz, mais do que os outros, de perceber e apreender o seu tempo.(...) Um homem inteligente pode odiar o seu tempo, mas sabe, em todo caso, que lhe pertence irrevogavelmente, sabe que não pode fugir ao seu tempo.
A contemporaneidade, portanto, é uma singular relação com o próprio tempo, que adere a este e, ao mesmo tempo, dele toma distâncias; mais precisamente, essa é a relação com o tempo que a este adere através de uma dissociação e um anacronismo. Aqueles que coincidem muito plenamente com a época, que em todos os aspectos a esta aderem perfeitamente, não são contemporâneos porque , exatamente por isso, não conseguem vê-la, não podem manter fixo o olhar sobre ela. (...)
O poeta – o contemporâneo – deve manter fixo o olhar no seu tempo. Mas o que vê quem vê o seu tempo, o sorriso demente do seu século? Neste ponto gostaria de lhes propor uma segunda definição da contemporaneidade: contemporâneo é aquele que mantém fixo o olhar no seu tempo, para nele perceber não as luzes, mas o escuro. Todos os tempos são, para quem deles experimenta contemporaneidade, obscuros. Contemporâneo é, justamente, aquele que sabe ver essa obscuridade, que é capaz de escrever mergulhando a pena nas trevas do presente. Mas o que significa “ver as trevas”, “perceber o escuro”?(...)
Perceber no escuro do presente essa luz que procura nos alcançar e não pode fazê-lo, isso significa ser contemporâneo. Por isso os contemporâneos são raros. E por isso ser contemporâneo é, antes de tudo, uma questão de coragem: porque significa ser capaz não apenas de manter fixo o olhar no escuro da época mas também de perceber nesse escuro uma luz que , dirigida para nós, distancia-se infinitamente de nós. Ou ainda: ser pontual num compromisso ao qual se pode apenas faltar. (...)
Compreendam bem que o compromisso que está em questão na contemporaneidade não tem lugar simplesmente no tempo cronológico: é, no tempo cronológico, algo que urge dentro deste e que o  transforma. E essa urgência é a intempestividade, o anacronismo que nos permite apreender o nosso tempo na forma de um ‘muito cedo’ que é, também, um ‘muito tarde’, de um ‘já’ que é, também, um ‘ainda não’. E, do mesmo modo, reconhecer nas trevas do presente a luz que, sem nunca poder nos alcançar, está perenemente em viagem até nós.”

In O que é o contemporâneo? e outros ensaios, Giorgio Agamben, Argos, editora da Unochapecó, 2010.
p.s: grifos meus.

sexta-feira, 30 de março de 2012

SAUDADES DE ROSA:


PARA OS ALMANAQUES

No meu relógio, de uma para outra hora,
Quando o ponteiro menor sai a levar lembranças,
Passa-lhe à frente o grande, transportando intrigas...

EPIGRAMA

Ó lua cheia, ocular de um longo telescópio branco
Que devassa o país dos amores platônicos...

ENCORAJAMENTO

Meu desejo corre a ti com velas enfunadas...
Podes dar-lhe um porto, sem nenhum receio:
Ele não traz âncora...
  
In Magma, João Guimarães Rosa, Editora Nova Fronteira, RJ,1997

quinta-feira, 29 de março de 2012

GRUPO DE ESTUDOS: esquentando:


“Ora, toda a novidade da Interpretação dos Sonhos está nesta ‘pequena’ mudança de método: abandonar a interpretação mediante um catálogo de ‘chaves’ fixas, levando em conta a particularidade da montagem específica com elementos em si mesmos contingentes.
É a partir dessa capacidade de elaboração conceitual, que se sustenta num ‘entre dois’ e a partir de um novo estilo de pensamento que não define mas se determina no seu desenvolvimento, que eu gostaria de aproximar três campos das ciências humanas: literatura, filosofia e psicanálise.
De maneira significativa, todos eles reivindicam, a partir do século XIX, o estatuto de ciência - reivindicação que se sustenta pela tentativa de abandonar posições dogmáticas e místicas, criando condições e pesquisa independentes da simples aceitação de uma instância ou autoridade que escape a essa investigação.”

In A Linguagem Liberada, Katrhrin Holzermayr Rosenfield, Editora Perspectiva, PA, 1989


p.s: como vocês se lembram a "Interpretações dos Sonhos" é de 1900, e Freud tinha 44 anos.

Quase-Ser-Tão diz 'Presente!'

Titulo Original: Quem Se Importa?
Gênero: Documentário
Duração: 91 min.
Origem: Brasil
Estreia: 13 de Abril de 2012
Direção: Mara Mourão
Roteiro: Mara Mourão
Distribuidora: Imovision
Censura:
Ano: 2011

ps: sugestão: não perder!!!

quarta-feira, 28 de março de 2012

O Brasil também se chama Millôr Fernandes:

 O homem das pérolas... Outro homem raro. Um brasileiro de carteirinha.

“Probleminhas terrenos:
quem vive mais
morre menos?”

“Qualquer idiota consegue ser jovem. É preciso muito talento pra envelhecer.”
“Eu sofro de mimfobia, eu tenho medo de mim mesmo e me enfrento todo dia”.


“coisa rara:
teu espelho
tem minha cara”

“Se você agir sempre com dignidade, pode não melhorar o mundo, mas uma coisa é certa: haverá na Terra um canalha a menos”.

O Que Você Quer Saber De Verdade

MARISA MONTE: cantora, portelense, mulher, poeta, compositora, para além... tipo tem infinito particular. Ainda bem que compartilha com a gente. Quem ainda não ouviu, pare tudo e ouça. Trilha sonora perfeita para esse outono... presente absoluto. Outra parceria com Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes. Coisa pra seguir.



  
2.         Descalço no parque
3.       Depois
4.        Amar alguém
5.        O que se quer
6.        Nada tudo
7.        Verdade, uma ilusão
9.        Ainda Bem
11.    Era óbvio
13.     Seja feliz
14.     Bem aqui
p.s: muito obrigada, Débora F.

Da palavra:


(...)
“Quando escrevo, não penso no leitor (porque o leitor é um personagem imaginário) e não penso em mim mesmo (talvez eu também seja um personagem imaginário), mas penso no que tento transmitir e faço de tudo para não estragá-lo. Quando  eu era jovem, acreditava na expressão. Eu lera Croce, e a leitura de Croce de nada me serviu. Eu queria expressar tudo. Pensava, por exemplo, que , se precisava de um pôr do sol, devia encontrar a palavra exata para o pôr do sol – ou melhor, a mais surpreendente metáfora. Agora cheguei à conclusão (e essa conclusão talvez soe triste) de que não acredito mais na expressão: acredito somente na alusão. Afinal de contas, o que são as palavras? As palavras são símbolos para memórias partilhadas. Se uso uma palavra, então vocês devem ter alguma experiência do que essa palavra representa. Senão a palavra não significa nada para vocês. Acho que podemos apenas aludir, podemos apenas tenta fazer o leitor imaginar. O leitor, se for rápido o suficiente, pode fica satisfeito com nossa mera alusão a algo. (...)

In Esse Ofício do Verso, Jorge Luis Borges, Companhia  das Letras, SP, 2007.

terça-feira, 27 de março de 2012

GRUPO DE ESTUDOS: esquentando... (e lembrando: recomeçamos dia 14 de abril)

 AQUI BATE UM CORAÇÃO


“Diante disso, não nos resta outra saída senão pensar para além do sujeito, ou seja, nas palavras de Agamben, pensar uma singularidade qualquer (um quodlibet, uma forma-de-vida, uma relação de amizade). Do sujeito vacilante, espectral, deve emergir então um gesto; no entanto, o gesto, a ação a que se reduz esse sujeito é uma suspensão, o réten, a reserva, que em todas as matérias é uma grande regra de viver com êxito.” (...)

In O que é o contemporâneo? E outros ensaios, Giorgio Agamben, Argos - editora da Unochapecó, 2010.

segunda-feira, 26 de março de 2012

ROGER WATERS e nós:


Então, a ideia é homenagear e agradecer ao Roger Waters. Muito obrigada. Mas não vou colocar THE WALL aqui, pois que... nem dá, né?, e porque vou colocar a canção que me (nos) ajudou a atravessar o sombrio ano de 73 (como é bom ter memórias boas... não se pode esquecer disso), fortalecendo-nos e ajudando a chegar à queda do muro. Vamos lá... Meninos, não desanimem. O muro vale como lembrança e homenagem necessária, mas agora é hora de reinventar os gestos... Tipo, depois de derrubada, limpeza de escombros e nova construção...

 US AND THEM

Us, and them
And after all we're only ordinary men.
Me, and you.
God onl
y knows it's not what we would choose to do.
Forward he cried from the rear
and the front rank died.
And the general sat and the lines on the map
moved from side to side.
Black and blue
And who knows which is which and who is who.
Up and down.
And in the end it's only round and round.
Haven't you heard it's a battle of words
The poster bearer cried.
Listen son, said the man with the gun
There's room for you inside.
"I mean, they're not gunna kill ya, so if you give 'em a quickshort,
sharp, shock, they won't do it again. Dig it? I mean he get off
lightly, 'cos I would've given him a thrashing - I only hit him once!
It was only a difference of opinion, but really...I mean good manners
don't cost nothing do they, eh?"
Down and out
It can't be helped but there's a lot of it about.
With, without.
And who'll deny it's what the fighting's all about?
Out of the way, it's a busy day
I've got things on my mind.
For the want of the price of tea and a slice
The old man died.


BOA SEMANA:



domingo, 25 de março de 2012

Santo Manoel Bandeira


 
MADRIGAL MELANCÓLICO
Manoel Bandeira

O que eu adoro em ti,
Não é a tua beleza.
A beleza é em nós que ela existe.
A beleza é um conceito.
E a beleza é triste.
Não é triste em si.
Mas pelo que há nela de fragilidade e de incerteza.

O que eu adoro em ti
Não é tua inteligência.
Não é o teu espírito sutil,
Tão ágil, tão luminoso,
- ave solta no céu matinal da montanha.
Nem é a tua ciência
Do coração dos homens e das coisas.

O que eu adoro em ti,
Não é a tua graça musical,
Sucessiva e renovada a cada momento,
Graça aérea como o teu próprio pensamento,
Graça que perturba e que satisfaz.

O que eu adoro em ti,
Não é a mãe que já perdi,
Não é a irmã que já perdi,
E meu pai.

O que eu adoro em tua natureza,
Não é o profundo instinto maternal
Em teu flanco aberto como uma ferida.
Nem a tua pureza. Nem a tua impureza.
O que eu adoro em ti – lastima-me e consola-me!
O que eu adoro em ti, é a vida. 

(11 de julho de 1920)

 
Manuel Carneiro de Souza Filho (1886 - 1968) - poeta, cronista, ensaísta, memorialista, tradutor e organizador de antologias. Um dos grandes desse país, de humor único, de ousadia refinada. Modernista, recusou-se a participar da Semana da Arte Moderna de 1922. A tuberculose o atingiu ainda jovem, e o fez viajar muito em busca da cura; por causa da doença fez muitas coisas em sua vida, dizia ele.
Foi um leitor inveterado, e brincou e examinou a morte. Conversou com ela. Teve medo. Riu dela. Manoel é um poeta obrigatório; é um gênio brasileiro que pode ensinar caminhos surpreendentes. Conviveu com os grandes intelectuais brasileiros de seu tempo, e é conhecido como um amigo maior. Teve uma relação especial com Carlos Drummond. É um dos meus grandes mestres, um dos meus protetores, pra quem oro quando a dor cresce. 

(Bandeira, Chico Buarque, Jobim e Vinicius)
 



sábado, 24 de março de 2012

O.QUE.SABE:


XII
1.       E recorda       o teu criador
Nos dias       de tua juventude
Antes que venham       os dias ruins
E se avizinhem os anos       dos quais dirás
Neles para mim        nenhum prazer

2.       Antes       que se escureça o sol       e a luz
E a lua       e as estrelas
E venham de volta as nuvens turvas       depois da chuva


3.       No dia       em que tremerem       os vigias da casa
E se curvarem       os homens de vigor
E esmorecerem as moendas        por falta de moleiras
E escurecer a vista às que olham        através das treliças

4.       E se fecharem as portas       para a rua
Quando se abafar       a voz do moinho
E o homem se levantar       com a voz do pássaro
E se forem sufocando        todas as filhas do canto

5.       Mesmo subir alturas lhe causará terror
E temores a caminhada
E a amendoeira em flor haverá de cintilar
E pesará o gafanhoto farto
E a alcaparra        perderá seus poderes
Pois o homem vai      para sua casa no eterno-sempre
E está na rua a ronda dos que pranteiam

6.       Antes que se rompa      a corda de prata
E se quebre      a copa de outro
E se parta o cântaro      sobre a fonte
E a roldana quebrada      caia na cisterna

7.       E o pó voltará      à terra      tal qual era
E o sopro irá de volta
A Elohim      que o deu
                                                                                                                                                      
8.       Névoa de nadas      disse O-QUE-SABE       tudo névoa-nada

9.       E      Qohélet foi mais do que        um sapiente
Sempre       ensinou o saber       à gente do seu povo
E pesou e ponderou
 Elaborou        provérbios numerosos.

10.    Qohélet buscou
Descobrir      o prazer das palavras
E a escrita justa       palavras verídicas.

11.   Palavras de sábios      iguais a pontas de aguilhão
E iguais a cravos bem pregados
As coleções dos mestres-de-parábolas
Doadas       por um só pastor

12.   E além delas      meu filho fique claro
Fazer livros em excesso       não tem alvo
E excesso de estudo      entristece a carne

13.   Fim da fala      tudo foi ouvido
Teme a Elohim      e observa seus mandamentos
Pois isto é       o todo do homem

14.   Que as obras todas
Elohim     as julgará
Todas por mais ocultas
Boas     e más

 In Eclesiastes – Qohélet, Haroldo de Campos, Editora Perspectiva,SP, 1991.