sexta-feira, 2 de março de 2012

André Gide: a se descobrir


"VOLUBILIDADE DOS FENÔMENOS

Desde esse dia, cada instante de minha vida adquiriu para mim o sabor de novidade de um dom absolutamente inefável. Assim vivi numa quase perpétua estupefação apaixonada. Alcançava muito depressa a embriaguez e comprazia-me em andar numa espécie de aturdimento.
Por certo quis beijar tudo o que encontrei de riso nos lábios; quis beber o que encontrei de sangue nas faces, de lágrimas nos olhos; e morder a polpa de todos os frutos que dos galhos se inclinaram par mim. Em cada albergue uma fome me saudava; diante de cada fonte uma sede me esperava – uma sede particular diante de cada uma -, e almejara outras palavras para marcar meus outros desejos
de marcha,onde se abria uma estrada;
de repouso, onde me convidava a sombra;
de amor ou de sono ao pé de cada leito.
Botei intrepidamente a mão em todas as coisas e acreditei ter direitos sobre cada objeto de meus desejos. (Demais, o que almejamos, Nathanael, não é tanto a posse,  é o amor). Que toda coisa se irise diante de mim! Que toda beleza se revista e se matize de meu amor.”

In Os Frutos da Terra, André Gide, Riográfica, RJ, 1986.

André Paul Guillaume Gide  ( Paris,1869- 1951). Nobel de Literatura de 1947. Fundador da Gallimard e Nouvelle Revue Française. Proverbial vida e obra contra a homofobia. O texto escrito entre 1910 e 1924 se chama Corydon.  Pianista nato, de família da alta burguesia parisiense, tem a vida marcada por contradições e intensidades. Aos 8 anos de idade é afastado da École Alsacienne por ‘maus hábitos’. Sofre repressões familiares e médicas, e, aos 23 anos volta-se para a literatura ‘completamente virgem e depravado’. (sic) A morte do pai, de amigos, a mudança constante de escolas e de moradias, a conflitiva homossexualidade, carrega-o para uma infindável lista de doenças ‘nervosas’. A partir de 1887 inicia novo tempo, aprofunda-se em vastos estudos acadêmicos e se junta a um círculo literário; vive um período de misticismo; se liga a outros literatos, em especial Oscar Wilde, que o influencia noutra direção. É o tempo da ‘tentação de viver’ (sic), e cresce a produção literária. Segue-se um período de viagens, e doenças. Volta à França, morte da mãe, casamento com a prima Madeleine, novas viagens, novas influências literárias, novos casos de amor... e participação ativas nos acontecimentos políticos, sociais, filosóficos e literários de seu tempo. Escreve teatro, crônica e crítica.
Em 1952, sua obra foi incluída no Índex de livros proibidos pelo Vaticano.

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