domingo, 18 de março de 2012

DA ESCRITA:


“Escrever, enfim, é estar habitado por uma mixórdia de fantasias, às vezes preguiçosas como os lentos devaneios de uma sesta estival, às vezes agitados e febris como o delírio de um louco. A cabeça do romancista funciona por si mesma; é possuída por uma espécie de compulsão fabuladora, e isto às vezes é um dom e em outras ocasiões é um castigo. Por exemplo, um dia você lê no jornal uma notícia atroz sobre meninos esquartejados na frente dos pais na Argélia e não pode evitar que a maldita fantasia se desencadeie, recriando de maneira instantânea a horripilante cena em seus detalhes mais insuportáveis: os gritos, as salpicaduras, o cheiro pegajosos, o rangido dos ossos se quebrando, o olhar dos algozes e das vítimas. Ou então, num nível muito mais ridículo, porém igualmente incômodo, você vai atravessar um rio de montanha por uma ponte improvisada de troncos e, ao apoiar o primeiro pé sobre a madeira, de repente sua cabeça apresenta a sequência completa da queda: como você vai escorregar no limo, como vai sacudir os braços desajeitadamente no ar, como vai meter um pé na corrente gélida e depois, para maior vexame, o outro pé também e depois as nádegas, porque vai cair sentada no arroio. E, voilà, uma vez imaginada a tolice em todos os seus pormenores (o choque frio da água, a momentânea desorientação espacial que toda queda produz,a dolorosa torção do pé,a ardência do raspão da mão contra a pedra), fica bastante difícil não realizá-la. Daí se origina, pelo menos no meu caso, uma aflitiva tendência  me espatifar em todas as travessias de riachos e em todas as subidas montanhosas um pouco mais ásperas.”

In A Louca da Casa, Rosa Montero, Ediouro, RJ, 2004


Nenhum comentário:

Postar um comentário