quarta-feira, 28 de março de 2012

Da palavra:


(...)
“Quando escrevo, não penso no leitor (porque o leitor é um personagem imaginário) e não penso em mim mesmo (talvez eu também seja um personagem imaginário), mas penso no que tento transmitir e faço de tudo para não estragá-lo. Quando  eu era jovem, acreditava na expressão. Eu lera Croce, e a leitura de Croce de nada me serviu. Eu queria expressar tudo. Pensava, por exemplo, que , se precisava de um pôr do sol, devia encontrar a palavra exata para o pôr do sol – ou melhor, a mais surpreendente metáfora. Agora cheguei à conclusão (e essa conclusão talvez soe triste) de que não acredito mais na expressão: acredito somente na alusão. Afinal de contas, o que são as palavras? As palavras são símbolos para memórias partilhadas. Se uso uma palavra, então vocês devem ter alguma experiência do que essa palavra representa. Senão a palavra não significa nada para vocês. Acho que podemos apenas aludir, podemos apenas tenta fazer o leitor imaginar. O leitor, se for rápido o suficiente, pode fica satisfeito com nossa mera alusão a algo. (...)

In Esse Ofício do Verso, Jorge Luis Borges, Companhia  das Letras, SP, 2007.

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