sexta-feira, 16 de março de 2012

EU REPITO: Paulo Leminski

 INVERNÁCULO
(3)
Esta língua não é minha,
    qualquer um percebe.
Quando o sentido caminha,
   a palavra permanece.
Quem sabe mal digo mentiras,
  vai ver que só minto verdades.
Assim me falo, eu, mínima,
   quem sabe, eu sinto, mal sabe.
Esta não é minha língua.
A língua que eu falo trava
   uma canção longínqua,
a voz, além, nem palavra.
   O dialeto que se usa
à margem esquerda da frase,
    eis a fala que me lusa,
 eu, meio, eu dentro, eu, quase.


 Já disse de nós.
    Já disse de mim.
Já disse do mundo.
Já disse agora,
   eu que já disse nunca.
Todo mundo sabe,
   eu já disse muito.
 Tenho  a impressão
   que já disse tudo.
E tudo foi tão de repente.


    Morar bem
morar longe
     morar lá onde
mora meu
     mais distante quando

  viver é super-difícil
o mais fundo
    está sempre na superfície
depois de muito meditar
resolvi editar
tudo o que coração
me ditar

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