segunda-feira, 5 de março de 2012

Fictícias considerações autobiográficas


1.
A geladeira azul contrastava com o piso vermelho da cozinha. Encerado semanalmente à mão, bem lustrado, cheirava limpeza e aconchego. Alguma coisa a ver com abrigo. O contraste azul em vermelho, hoje, me relembra algum tremor: medo em retrospectiva. Desarmonia, violência, indiferença. O frescor do chão aliviava o calor da fornalha à lenha, diametral à geladeira. O perigo do fogo ligado à brutalidade dos homens. O fascínio do fogo ligado à esperança do amor dos homens.   O paradoxo da cozinha da minha infância inscreveu-se na minha barriga. Em transverso. Mas ainda não sei como foi que o amarelo entrou na história, revertendo antíteses. Tenho tardes amarelo-azuis. Pensamentos frios, palavras doces e fogo no peito.

2.
Houve um caderno de contabilidade no tempo do amor.
 Ali se registravam carinhos, beijos, saudades e promessas.
 A contabilidade não fechou suas contas. Ela seguia em frente, ele preferia um lado.
 Ela dizia sempre que o problema era o quadrado da hipotenusa, já que Pitágoras, pura geometria, não tinha importância na questão da contabilidade.
Ele queria a contabilidade, mas se ocupava da geometria.
Impossível calcular a área sem a medida da hipotenusa.
Para conseguir a medida da hipotenusa é preciso parar.
Acho que, por isso, ninguém pára.
Para não fechar as contas.
Agora o problema é outro:
Retas paralelas se encontram no infinito.
Será?

3.
Um vestido amarelo. Lese. Melindrosa. Primeira propriedade. Pronto. Eis como o amarelo entrou na história. Desde dentro. Posto um dentro, é possível parar. Quando se assume um ponto, que se dane o infinito. 

Magda Maria Campos Pinto 

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