sexta-feira, 9 de março de 2012

Freud, o romantismo e eu


“Ler  Freud ‘esteticamente’ significa aqui abordar a noção de inconsciente freudiano a partir do seu método, ou seja, a partir de um estilo que tem um forte parentesco com o pensamento  do pré-romantismo alemão. Ambos se caracterizam por uma excepcional sensibilidade para com a arte, a reflexão estética e a criação poética.Nunca antes ou depois da virada do século XVIII para o XIX – com a única exceção de Freud – tem-se reiterado um vínculo tão íntimo entre o conhecimento científico filosófico e o fazer poético.
Já ao nível mais superficial, nota-se que as predileções estéticas de Freud encaixam-se perfeitamente nos padrões e modelos instituídos pelos românticos. As artes plásticas da Antiguidade, a tragédia clássica e elisabetana devem a eles seu lugar exemplar no imaginário convencional do século XIX. Porém, mais do que isso, Freud se deixa tomar como eles pela realidade artística, ele se reconhece literalmente nessa literatura, elaborando a auto-análise, a teoria dos sonhos e do inconsciente num diálogo permanente com Édipo Rei e Hamlet. Porém seu método de dialogar com a literatura foge às convenções românticas e apóia-se numa reflexão que se distancia igualmente dos românticos – nas conjeturas de Schiller em torno do enigma da criação. As posições de Schiller representam de certa forma um ponto de ruptura com as colocações estritamente românticas e rejeitam de maneira explícita e implícita toda a filosofia da arte elaborada em torno do conceito central do inconsciente romântico. Ao desvincular-se das ‘espec ulações idealistas’ de Schelling, Schiller consegue levantar uma série de problemas fundamentais relacionados com o funcionamento da linguagem poética e da linguagem em geral, articulando, por exemplo, o problema da anterioridade e da autonomia da linguagem em relação ao sujeito intencional e racional. São essas colocações que chamam a atenção de Freud quando concede ao pensamento de Schiller um lugar de destaque ao citá-lo in extenso no capítulo 2 da Interpretação dos Sonhos.”

In A linguagem liberada, Kathrin Holzermayr Rosenfield, Perspectiva, SP, 1989.


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