domingo, 11 de março de 2012

GUERNICA, PABLO PICASSO E A INDIGNAÇÃO

GUERNICA é um painel de Pablo Picasso pintado em 1937. É a reação do artista ao bombardeio alemão sobre a cidade espanhola de Guernica, em aliança com o ditador Francisco Franco. Tudo impressiona no painel: a originalidade da composição, o trabalho monocromático, a força explosiva da brutalidade, a revelação crua da mediocridade humana. E acima de tudo isso: a absoluta solidão perplexa que se nos escancara diante dele. É uma obra que carrega uma nuvem enorme de lendas, curiosidades e especulações, o que revela ainda mais seu poder. Feita em Paris, foi transferida para Nova York durante a segunda guerra, e ficou sob a guarda do MOMA até 1981. Picasso teria pedido que o painel  fosse para a Espanha quando o país vivesse em democracia e, por isso, os espanhóis o denominaram ‘el último exiliado’. Já se questionou a ‘realidade’ do bombardeio alemão a Guernica, com várias especulações que apontam ter sido a cidade destruída pelos próprios opositores espanhóis de Franco, ou pelos italianos, ou pelos franceses... E ainda, que o painel já estava pronto e se tratava de retratar as touradas, e que após o episódio Guernica, Picasso o renomeou e  publicou para se promover. O fato é a destruição bárbara e absoluta de uma pequena aldeia, que matou e mutilou mais de um terço da população; e, que, ‘o modo de execução é o modo hitleriano’, modo esse que explica inclusive a escolha de Guernica, cheia de significados quanto aos processos internos da Espanha. Esse ataque horrorizou o mundo, mostrando a cada aldeiazinha do planeta que, a partir de então, a guerra não estava na luta entre fronts, mas chegava a qualquer lugar, a qualquer hora, conforme a decisão dos déspotas. E é certo que Picasso captou e exibiu essa ‘nova guerra’ em seu painel e que ele, naquela data, já trabalhava em Paris para arrecadar fundos para os republicanos espanhóis. Exposta pela primeira vez na Feira Internacional sobre a Vida Moderna, em Paris, no dia 4 de junho de 1937, foi praticamente ignorada pelo público. Não mais que dois anos depois as grandes cidades do mundo  (de Varsóvia, Londres, Leningrado, Hamburgo, Paris ...a Hiroshima e Nagasaki) irão mostrar as cenas de Guernica, que se transforma assim numa revelação dos desatinos e desastres que cairiam sobre o mundo durante o século XX.

“No, la pintura no está hecha para decorar las habitaciones. Es un instrumento de guerra ofensivo y defensivo contra el enemigo”. (Picasso, sobre Guernica)
“Não era algo belo de ser visto. Picasso, para retratar o clima sombrio que envolvia o desastre, utilizou-se da cor negra, do cinza e do branco. Como nunca a máxima de Giulio Argan segundo a qual a ‘arte não é efusão lírica, é problema’ tenha sido tão explicitada, como na composição de Picasso. O painel encontra-se dominado no alto pela luz de um olho-lâmpada – símbolo da mortífera tecnologia – seguida de duas figuras de animais. No centro um cavalo apavorado, em disparada, representa as forças irracionais da destruição. A direita dele, impassível, um perfil picassiano de um touro imóvel. Talvez seja símbolo da Espanha em guerra civil, impotente perante a destruição que a envolvia. Logo abaixo do touro, encontramos uma mãe com o filho morto no colo. Ela clama aos céus por uma intervenção. Trata-se da moderna pietá de Picasso. Uma figura masculina, geometricamente esquartejada, domina as partes inferiores. À direita, uma mulher, com seios expostos e grávida, voltada para a luz, implora pela vida, enquanto outra, incinerada, ergue inutilmente os braços para o vazio, enquanto uma casa arde em chamas. Naquele caos a tecnologia aparece esmagando a vida”. (http://educaterra.terra.com.br/voltaire/mundo/guernica_eta.htm)


“Eu pinto como os outros escrevem suas biografias. Minhas pinturas, estejam terminadas ou não, são as páginas do meu diário, e como tal são válidas. O futuro escolherá as páginas que preferir. Eu sinto como se o tempo fugisse de mim cada vez mais depressa. Eu sou como um rio que continua a correr, carregando as árvores que crescem muito perto dos bancos, carcaças abandonadas e as várias espécies de micróbios que proliferam em suas águas. Eu absorvo tudo isso e continuo em meu caminho. É o movimento da pintura que me interessa,a passagem dramática de um ‘escopo’ para outro, mesmo que estes ‘escopos’ não possam ser carregados até sua conclusão. No caso de alguns de meus trabalhos,eu posso dizer: o ‘escopo’ foi levado até sua conclusão, desde que consegui bloquear a corrente de vida em torno de mim. Eu tenho cada vez menos tempo, embora tenha cada vez mais coisas para dizer. E o que eu tenho para dizer é, mais e mais, algo que se move  para a frente , junto ao movimento de meu pensar” (Picasso)

 Pablo Diego José Francisco de Paula Juan Nepomuceno Maria de los Remedios Cipriano de la Santísima Trinidad Ruiz y Picasso nasceu a 25 de outubro de 1881, em Málaga. Filho de um pintor profissional e de uma herdeira de tradicional família espanhola, revelou precocemente seu talento e aos 10 anos já estava pintando e expondo. Amplamente apoiado pela família, segue em paz seu destino de artista: o insolente subversivo de mais de trinta séculos de arte ocidental, o mestre do cubismo, as influências do surrealismo, o africano, o escultor, o ilustrador, o militante, o amante, o escultor, o bravo, o terno, o indomável, o gravador, o literato, o amigo... o autor, dizem, de mais de vinte mil obras.


“Nós sabemos agora que a arte não é a verdade. A arte é uma mentira que permite que nos aproximemos da verdade, ao menos da verdade que podemos discernir. O artista deve surpreender a maneira de convencer o público da inteira veracidade de suas mentiras (...) A obra exprime, frequentemente, mais do que almejava o desejo do autor: ele fica muitas vezes perplexo com os resultados que não havia previsto. O nascimento de uma obra é às vezes uma espécie de geração espontânea. Ora o desenho penetra o objeto, ora a cor sugere as formas que determinam o sujeito (...) Não há arte no passado nem no futuro. A arte que não é do presente jamais será arte” (Picasso)

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