segunda-feira, 12 de março de 2012

"Um missionário como sobrevivente ao fim do mundo” (Canetti, anotações, 1973)

“Eu não me arrependo dessas orgias literárias. Eu me sinto como na época da expansão para ‘Massa e Poder’. Também naquela época tudo aconteceu por meio das aventuras com livros. Quando eu estava sem dinheiro em Viena, gastava tudo que não tinha em livros. Em Londres, na pior época, eu sempre conseguia de algum modo, de tempos em tempos, comprar livros. Eu jamais aprendi algo sistematicamente, como outras pessoas, mas apenas com inquietudes súbitas. Elas sempre começavam com meu olhar a cair sobre algo que eu tinha que possuir. O gesto do arrebatar, a alegria de jogar dinheiro fora, o levar para casa ou para o estabelecimento mais próximo, o olhar, o acariciar, o folhear, o colocar de lado por anos, o tempo do descobrimento então, quando se tornava sério – tudo isso é parte de um processo de criação, cujos secretos detalhes desconheço. Mas comigo nada se passa de outro jeito, e assim eu terei de comprar livros até o último momento da minha vida, especialmente quando eu souber com certeza que eu nunca mais os lerei.
É, acredito, também parte da teimosia contra a morte. Eu jamais quero saber quais desses livros ficarão sem ser lidos. Até o final, não pode ficar decidido quais serão eles. Eu tenho a liberdade de escolha, entre todos os livros à minha volta posso a qualquer hora escolher e tenho por meio disso o decorrer da vida em minha mão.”

In Sobre a morte, Elias Canetti, Estação Liberdade, SP, 2009.

Ellias Canetti nasceu búlgaro em 1905, teve nacionalidade suíça e britânica, escreveu em alemão, e morreu em Zurique em 1994. Seus pais eram descendentes de ricas famílias de judeus sefarditas, assim a primeira língua que falou foi o espanhol dos sefarditas (ladino). Emigrou para a Inglaterra ainda na infância, mas viveu a juventude em vários lugares da Europa. Graduou-se em Química pela universidade de Viena. Recebeu o prêmio Nobel de literatura em 1981.
‘Massa e Poder’ é sua obra teórica mais potente (sobre a psicopatologia das massas) mas que se pese também A consciência das Palavras, A língua absolvida, Uma Luz em Meu Ouvido...; e são muitas as obras literárias: O Casamento, Comédia da Vaidade, Auto-de-fé, O outro processo – Cartas a Felice, Vozes de Marrakesh, etc. Em ‘O Todo-ouvidos’, encontramos o bibliófago, a fatigada (a que trabalha demais, naturalmente), o machômano (que chuta na barriga da mãe), a tentada que é perseguida pelos homens, o sapo-esteta apreciador da beleza, o goza-males que adora uma desgraça... 

Canetti é singularidade e fecundidade; fonte que inspira obras primas. Seus textos têm alguma espécie de imã, e não são confortáveis. Mas desde o princípio sabemos que temos nas mãos algo necessário e poderoso. Irrecusável. Fez a mais sincera das críticas literárias e o mais fiel retrato da sociedade européia de seu tempo. Aliás, Canetti ‘é tempo’. Não se compreende Canetti se não se tem por baliza ‘um determinado tempo’: da história, da vida, da memória, da humanidade. Profundidade é a palavra presente, como se ele soubesse tudo, mas soubesse, mais ainda, que esse tudo é muito pouco. Sinto falta de Canetti nesses dias, como se ele pudesse nos ajudar agora. Estou voltando hoje para Canetti. Para os livros que, talvez, eu não lerei.

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