sexta-feira, 23 de março de 2012

Para Mônica:

Furuborg, Jonsered, Suécia, 4 de novembro de 1904.

Meu caro Sr. Kappus,
Nesse período, que se passou sem uma cara, eu estava em parte viajando, em parte tão ocupado que não me foi possível escrever. Ainda hoje me é difícil fazê-lo, pois tive de escrever tantas cartas que já tenho as mãos cansadas. Se pudesse ditar, dir-lhe-ia muita coisa; não o podendo, peço-lhe que aceite estas poucas palavras em resposta à sua longa carta.

Penso frequentemente no senhor e com tão concentrados votos que isso, finalmente, deveria ajudá-lo de uma maneira ou de outra. Duvido muitas vezes que minhas cartas possam ser realmente um auxílio. Não me diga que o são. Aceite-as tranquilamente, sem agradecimentos: deixe-nos aguardar o que vier.

Talvez de nada sirva que eu analise uma por uma as suas palavras agora. O que poderia dizer acerca de seu pendor para a dúvida ou de sua incapacidade de harmonizar a vida externa e interna, ou tudo aquilo que o oprime ainda, seria sempre a repetição do que já disse: desejo que encontre bastante paciência em si para suportar e bastante simplicidade para crer; que confie cada vez mais no que é difícil, entre outras coisas na sua solidão. No restante, deixe a vida acontecer. Acredite-me: a vida tem razão em todos os casos.

Quanto aos sentimentos: são puros todos aqueles que o senhor concentra e guarda; impuros os que agarram só um lado de seu eu e o deformam. Tudo o que pode pensar a respeito de sua infância é bom. Tudo o que o torna algo mais do que foi até agora em suas melhores horas é bom. Toda intensificação é boa,quando está em todo o seu sangue, quando não é turva ebriedade, mas alegria cujo fundo se vê. Compreende o que quero dizer?

Sua dúvida pode tornar-se uma qualidade se o senhor a educar. Deve-se transformar em saber, em crítica. Cada vez que ela lhe quiser estragar uma coisa, pergunte-lhe por que aquilo é feio. Peça-lhe provas, examine-a; talvez a ache indecisa e embaraçada, talvez revoltada. Mas não ceda, exija argumentos. Ponha-se a agir assim, atenta e consequentemente, cada vez e a cada dia virá em que, de destruidora, ela se tornará sua  melhor colaboradora, talvez a mais sábia de quantas cooperam na construção de sua vida. Eis  tudo o que lhe posso dizer hoje, caro Sr. Kappus. Mando-lhe, porém, ao mesmo tempo, uma separata com uma pequena poesia publicada agora no Deutsche Arbeit de Praga. Aí continuo a falar-lhe da vida e da morte, a dizer-lhe que ambas são grandes e esplêndidas
Seu, 

Rainer Maria Rilke

In Cartas a um jovem poeta, Tradução de Paulo Rónai, Editora Globo, SP.


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