sábado, 3 de março de 2012

.... porque eu amo Cortázar.



 ESTAÇÃO DA MÃO

Alguém da minha família encontrou há pouco tempo uns papéis meus em Buenos Aires que tinham passado a fazer parte daquela vaga região das casas onde antigos colchões, revistas Para Ti, mosquiteiros esburacados, conjuntos de chá incompletos e latas vazias mas sempre úteis, ou talvez cheias mas já não se sabe de quê, e portanto perigosas, vão se amontoando num canto favorecido pelas felpas, as aranhas e as vagas esperanças das crianças na hora da sesta; e me escreveu com o cortês desconcerto daquele que se vê às voltas com algo que sai das categorias domésticas e que sem chegar a ser decididamente lixo ocupa de qualquer maneira um lugar que poderia servir mais vantajosamente para um pedaço de sabão amarelo ou aquele doce de tomate que se faz na Argentina e do qual conservo uma nostalgia cheia de salgueiros e amores impossíveis. Senti curiosidade por esses rastros que minha mão deixou em outros tempos (acreditando queimar, junto com as naves, todos os papéis em certo dia de novembro de cinqüenta e um); chegou-me assim um diário de uma viagem ao Chile por volta de quarenta e dois, e uma espécie de continho totalmente esquecido e muito bobo, no qual se tratava justamente de uma mão. Petulante, ingênuo e de um esteticismo cinzento e Vernon Lee, ele me enterneceu por passado, por indefeso. Reproduzo-o aqui tal e qual, pensando nestas palavras de Corot que Jean Cocteau cita em Opium e que traduzem exatamente a minha ternura: “Esta manhã tive o prazer extraordinário de rever um quadrinho meu. Nele não havia nada, mas era encantador e parecia pintado por um pássaro.”

In A volta ao dia em 80 mundos, Júlio Cortázar, Civilização Brasileira, RJ, 2008.

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