sábado, 17 de março de 2012

Quero que, de 5 em 5 minutos, me digas: eu te amo.


Todo mundo do Quase-Ser-Tão sabe e comunga nosso amor absoluto por Carlos Drummond de Andrade, sabe que fizemos o maior sarau sobre Drummond que esta cidade já viu, em 2008. Quem acompanha este blog também sabe que amamos o Zé Miguel Wisnik. Então temos toda a razão para comemorar eventos deste tipo... VIVA DRUMMOND! (bobagem esta…, ele é eterno, como ele mesmo poetizou , até isso...)


Saudades de todos que estiveram conosco naquele junho de 2008... Parabéns a vocês, obrigada a vocês... E aproveitem isso. E, por isso, também repetimos nossa declaração de amor porque:
“Quero que todos os dias do ano
todos os dias da vida
de meia em meia hora
de 5 em 5 minutos
me digas: Eu te amo.”

Querido Drummond,
Eu espero que você esteja bem. Há muito sim, há muito eu não te escrevo. Você sabe como a vida muda. Eu te conto como a minha vida agora é muda. Salvou-se apenas aquela palavra escrita no meu sangue desde o nascimento: amor. Mas como você também sabe, a vida prossegue. Nem todos se libertaram ainda. Eu? Ainda estou presa à vida. Outra. E mesma. Meus ombros suportam o mundo. Por isso eu escrevo. Eu preciso de você, poeta. Eu tenho que me contar: estúpido, ridículo e frágil é o meu coração. Estúpido, ridículo e frágil é o meu coração.
Não. Não é por causa da pedra no caminho. Nem do mundo, mundo, vasto mundo. Não é porque Minas não há mais, poeta. Nem vou dizer que seja culpa daquele verbo antipático, impuro, ensinando ser não ser. Tampouco digo que seja o caso da vida presente, a vida vida, a vida apenas, sem mistificação. Digo sim que a vida vida foi um constrangimento. Grande susto encontrá-la de repente nua, em si, sem disfarce. Foi duro. Sozinha no escuro, qual bicho do mato, sem teogonia, e eu nem me chamava José. Mau jeito seu apresentar-me a vida vida. Sempre nessa toada: briga perdoa, perdoa briga. Hoje beija, amanhã não beija. Depois de amanhã é domingo, e segunda-feira ninguém sabe o que será. Meu ouvido torto, né? Sei. Aprendi, aprendi que não se deve xingar a vida, que o amor volta pra perdoar. Pra brigar, né? Amor! Cachorro, bandido, trem. Eu? Não sou orgulhosa, nem sou de ferro. Muito menos alheia a porosidades, meu caro poeta! Você me impregna completamente. Por isso eu te perdoei. Afinal, a infância passou, os três amores também, e você tinha razão: o coração continua. A estas alturas, eu já aprendi a me chamar José. Tenho três gatos e aceito o convite pra fazer um poema... ou qualquer besteira.
Sua visita me alivia, nada de: então, desanimamos, adeus tudo! Não, não, não, não! Mil anos depois aqui estou eu para depositar sobre você minha gratidão e meu amor. Amor tão forte, amor tão dor. Tão desbaratado. Amor que bate na aorta, como eu lhe dizia. Ah, não eu era quem dizia. Claro. Mas... êta vida besta, né? Pois é, nem me lembro de orgasmos passados, e pouco me importa o futuro pânico. Sabe poeta, quase foi na idade madura. Aquele amor roçando cada poro do céu do corpo. Este amor, poeta, privilégio que chega tarde. Segredos de quem ama, a cama. Eu entendi. Quase... Ah, apenas e tão somente quase, querido poeta. Tá bom, tá bem... eu confesso que não respirei por muitos e muitos segundos. Não aqueles que implacavelmente nos vigiam, né? CON-FIS-SÃO! Verdade que eu te amei loucamente naquele pássaro... Vinha azul e doido. E não sofri esfacelando-me em ti... Ah, poeta, um escândalo isso! Quase insuportável tão vida vida! Você devia se conter um pouco. Gauchismo também tem limite.
Que fazer? Aspirei a vida. Aspirei o tempo. Todo o presente, meu coração cresceu, cresceu mais de dez metros e não explodiu. Não podia explodir, pois você já me recriara a vida. Lembra? Uai! A vida vida que você jurou criar. Lembrou-se?
Oh... Eu tenho que te contar que na vida vida coisas incomuns se passaram comigo. E ainda se passam. Despi-me dos vestidos rendados. E o dos padres! Casei-me com leiteiros. Encontrei a famosa flor e me curei da náusea. Casei-me mais sete vezes com Charles Chaplin. E ainda me caso, vez por outra... assim com um Garcia Lorca.
Ué, você se vire para se explicar! Afinal, o mundo, vasto mundo é todo seu. E quem prendeu o amor (pobre o Amor, preso por tanto desatino!) e soltou a Loucura foi você! Eu..., eu me senti livre. Banhada em sua fina ironia, levada pelo seu deboche (elegante!), mergulhei no seu claro enigma.
Ah, poeta... Mas ainda não foi dessa vez. Mal rompe a manhã, lá estou eu: lutando com as palavras, à procura da poesia, considerando o poema, explodindo a ilha de Manhattan....?!?... Vai saber.... POETA! Eu quero lhe dar tudo. Ah..., isso não. Isso não dou não. Eu não lhe disse que sou senão... hein!?... MULHER! É isso, poeta? Exatamente isso: mulher. Ai, Deus, mulher! Precisamente isso.
Na idade de sentir essas coisas, sem medo dessa hora, com amor forte, 
Fulana.

PS- meu vestido esconde algo. Eu tenho coxas reais. Eu... Pantera de garra quebrada.

 Magda Maria Campos Pinto

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